O salão do festival se abria sob luzes frias que batiam nas cúpulas prateadas alinhadas como espelhos. Nenhuma placa, nenhum nome. Apenas o cheiro de peixe fresco e o silêncio cortado pelo tilintar distante de talheres.
Sakura apertou o crachá anônimo contra a palma da mão. O código bastava. Ela queria que o sabor falasse, nada mais.
As cúpulas que não têm dono
Lucas chegou por trás, o terno ainda com o cheiro de chuva da rua. Ele tocou o cotovelo dela sem força, apenas o suficiente para lembrar que estava ali. Não deixe que ele veja seu rosto, murmurou. Sakura não respondeu. Os olhos dela seguiam a fileira de pratos idênticos.
Ricardo Sakamoto parou no centro do salão, exigindo a lista de concorrentes. A voz dele ecoava entre as mesas. Um assistente tentou explicar as regras da seleção às cegas. Ricardo não aceitou.
O corte que os jurados reconheceram
Os jurados provaram o prato número sete em silêncio. Um deles ergueu a cabeça, os olhos semicerrados. A técnica de corte é precisa demais, disse. Outro completou: a forma como o peixe se abria lembrava algo que só um mestre conseguiria repetir.
Sakura ficou parada atrás da cortina, o coração batendo contra as costelas. Ricardo se aproximou da mesa dos jurados, o rosto corado. Ele exigiu saber quem havia preparado aquele prato.
Sem nome no prato, o preconceito de vocês perdeu o paladar.
Os jurados anotaram a maior pontuação preliminar ao lado do código sete. A sala inteira pareceu prender a respiração por um segundo.
O anúncio que ninguém esperava
Uma voz no microfone anunciou que os dois finalistas preparariam a receita ao vivo diante das câmeras. Ricardo deu um passo atrás, o jaleco branco repuxando nos ombros. Lucas olhou para Sakura e fechou os olhos por um instante.
Ela guardou o crachá no bolso, sentindo o peso do caderno de Hiroshi contra o peito. A fileira de cúpulas refletia a luz sem revelar nada.
