A tempestade arranhava as vidraças do escritório, e o cheiro de madeira molhada misturava-se ao de papel velho. Sobre a mesa escura, o laudo de DNA permanecia aberto, as bordas curvadas pelo toque repetido de dedos nervosos. A luz fraca do abajur projetava sombras longas sobre o rosto de Henrique, que não tirava os olhos do documento.
Helena parou à porta, o casaco ainda úmido da chuva. Emily estava ao lado da mesa, postura ereta, um sorriso fino que não chegava aos olhos. Nenhuma das três mulheres falava. Apenas o barulho da água batendo no vidro preenchia o silêncio.
O laudo que a chuva não apaga
Henrique passou a mão pelo queixo. Ele queria acreditar nas filhas, mas o papel ali era concreto demais. Helena deu um passo à frente e tocou a borda do laudo com a ponta do dedo, como se pudesse senti-lo mentir.
— Isso não prova nada — murmurou ela. — E você sabe.
Emily cruzou os braços. — O que eu sei é que essa menina precisa sair desta casa agora. Antes que cause mais estrago.
Esse papel não diz quem é minha filha; diz apenas até onde alguém foi capaz de mentir.
A voz que chega de longe
Lara apertou o telefone contra a orelha no corredor do aeroporto. A voz do atendente do laboratório era seca: o lugar havia fechado cinco anos antes. Ela desligou devagar, o coração batendo contra as costelas. Alguém havia fabricado tudo.
Ela olhou para o bilhete de embarque. Santa Augusta dos Vinhedos aparecia em letras pretas. Um exame verdadeiro já estava na mala, junto com os registros antigos que conseguira copiar.
A exigência que ecoa na mansão
De volta ao escritório, Emily apontou para a porta. — Saia. Agora. Clara ficou parada, os olhos úmidos, mas a voz firme quando respondeu:
— Eu não vou embora sem saber quem sou.
Henrique não se moveu. Helena deu um passo à frente, protegendo a filha com o próprio corpo. A taça de cristal na mesa tremeu quando a porta se fechou atrás delas.
A chuva continuava, mais forte agora, lavando as vidraças como se quisesse apagar a dúvida que restava no ar.
