O desenho de Tico mostrava a família de mãos dadas na frente da casa da Mooca. Bento parava toda manhã na sala e olhava sem conseguir falar. Ele já imaginava que precisava se afastar para não sofrer mais quando a verdade chegasse. O que ele ainda não sabia era que a dúvida sobre o sangue não ia resolver nada sozinha.
O desenho na parede da sala
Melina tentava deixar o café pronto como antes. Tico corria pela cozinha com o caminhão vermelho e parava só para mostrar o desenho de novo. Bento via o menino e saía para a obra mais cedo, sem dar boa noite. Ela percebia o silêncio crescendo entre os dois.
Caio ligou uma tarde. Disse que procurou Melina porque ainda a amava e queria tentar de novo. Melina desligou o telefone sem responder. O prato de arroz ficou esfriando na mesa.
A distância que Bento criava
Bento evitava brincar com Tico. Deixava o menino com a avó e voltava tarde. Tico parava na porta do quarto e esperava. Nenhuma palavra saía da boca de Bento. O menino guardava a pulseira que Caio tinha dado e não mostrava para ninguém.
Melina tentava conversar à noite. Dizia que o erro dela não mudava o que Bento tinha construído com o filho. Bento respondia só com a cabeça baixa. Ele não conseguia separar a traição da descoberta sobre a maternidade.
A pergunta que Tico fez
Tico apareceu no quintal enquanto Bento arrumava as ferramentas. O menino parou ao lado e falou baixo.
Se você não é meu pai de sangue, por que foi você que ficou quando eu tive medo?
Bento largou a pá. Olhou para o filho e sentiu o peito apertar. Ele se ajoelhou e abraçou Tico sem conseguir soltar.
Dr. Laranjo ligou no mesmo dia. Disse que tinha localizado a outra família e marcava um encontro na clínica. Bento guardou o telefone sem responder logo. Ele sabia que o sangue não ia apagar os quatro anos que já tinha vivido.
