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Do Cimento ao Topo — Capítulo 5: Agora somos nós três

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Na casa alugada ainda cheia de caixas, Bia acordou com febre e Sérgio cancelou uma diária importante. Ele repetiu para si mesmo que não ia perder a infância das filhas, mesmo que o dinheiro apertasse.

Sérgio abriu os olhos na casa alugada e viu as caixas empilhadas no corredor. Lara já estava acordada, sentada no chão com um lápis de cor na mão. Ele sabia que aquele dia ia testar se conseguia mesmo equilibrar tudo sozinho.

A casa ainda cheia de caixas

As paredes brancas precisavam de tinta. O fogão era velho e rangia quando acendia. Mesmo assim, Sérgio arrumou o café da manhã em pratos de plástico e chamou as meninas. Bia apareceu arrastando o cobertor, ainda com sono.

Lara mostrou o desenho que fizera. Na folha aparecia um homem de mãos dadas com duas meninas pequenas. Ninguém mais estava ali. Sérgio guardou o papel na gaveta da cozinha sem dizer nada.

A febre de Bia

À tarde, Bia começou a queixar-se de dor de cabeça. Quando Sérgio tocou na testa dela, sentiu o calor. Ele olhou o relógio: faltavam duas horas para a diária na obra nova que ele não podia perder. Tentou ligar para Dona Helena, mas o telefone dela estava fora de área.

— Eu ligo pra tia, pai? — perguntou Lara, já segurando o celular.

— Não, deixa. Eu resolvo.

Ele cancelou a ida para a obra. Bia dormiu no sofá depois de tomar o remédio que sobrara do mês passado. Sérgio ficou sentado na cadeira de plástico olhando a menina, pensando que uma diária a menos significava menos dinheiro para o mês.

Eu posso perder um dia de serviço, mas não vou perder a infância das minhas meninas.

A conversa no final do expediente

No dia seguinte, Sérgio voltou para o canteiro. Seu Dirceu observou ele carregar tijolo sem reclamar, mesmo com olheiras. No fim da tarde, o mestre chamou ele para o barracão.

— Você tem força, mas falta estudo. Tem gente que não entende isso. Eu vejo que você quer mais. Se quiser, tem um caminho pra quem topa estudar de noite.

Sérgio ficou em silêncio, olhando o chão de cimento. As palavras de Dirceu ficaram ali, misturadas com o som distante das meninas brincando em casa na cabeça dele. Ele não respondeu nada ainda. Só assentiu uma vez e voltou a guardar a ferramenta.