Sérgio carregava a colher de pedreiro na mão quando Seu Dirceu apareceu no barracão e pediu pra falar a sós. A prancheta antiga encostada na parede parecia esperar por ele. O que ele ainda não sabia era que aquela conversa guardava uma saída que ele vinha evitando há meses.
A conversa reservada
Seu Dirceu parou ao lado da bancada e olhou direto pra Sérgio. “Quero preparar alguém pra assumir mais coisa antes de sair de cena”, disse o mestre de obras. Sérgio limpou o suor da testa e ficou quieto. Sabia que crescia na obra, mas o peso das meninas e da casa separada apertava o peito.
Ele respondeu baixo: “Eu quero, mas não tenho estudo pra competir com quem já tem diploma.” Dirceu balançou a cabeça devagar. Não era recusa, era só o jeito dele medir o tempo.
O deboche do encarregado
Mais tarde, na hora do almoço, o encarregado riu alto perto da pilha de tijolos. “Pedreiro é pra carregar peso, não pra mandar em obra”, falou alto o bastante pra todo mundo ouvir. Sérgio sentiu o rosto quente, mas não respondeu. Continuou abrindo o pacote de comida que tinha trazido de casa.
Quem conhece o peso de cada tijolo pode entender uma obra melhor que muito homem de escritório.
A frase saiu da boca de Dirceu sem elevação de voz. O encarregado calou. Sérgio guardou o resto do pão e voltou pro serviço.
A chance do curso de edificações
No fim do expediente, Dirceu chamou de novo e entregou um papel dobrado. Era o folheto do curso de edificações noturno que começava dali a duas semanas. “Não precisa decidir hoje”, falou o velho. “Mas quem já carrega a obra nas costas aprende mais rápido que quem só lê livro.”
Sérgio guardou o papel no bolso da calça. Pensou nas filhas dormindo na casa alugada e na separação que já não voltava atrás. Se ele desistisse agora, tudo que estava construindo desmoronava junto. Voltou pra casa no ônibus lotado e, ao chegar, viu Lara ainda acordada desenhando no caderno.
Depois que as meninas dormiram, ele tirou o folheto do bolso e alisou com o dedo. Decidiu que ia retomar o segredo que guardava antes do casamento acabar. Estudaria. Uma página por noite, se fosse preciso. O corpo pedia descanso, mas a cabeça já corria pra frente.
Às duas da manhã a luminária da cozinha ficou acesa. As botinas sujas pararam no chão e o caderno abriu na primeira folha. Roberta, na obra, ia notar logo que ele mudava o jeito de perguntar sobre os projetos. Mas por enquanto era só ele, o papel e o peso que carregava sozinho.
