Amora parou no meio da praça lotada, o documento dobrado na mão. O sol batia forte nas calçadas e ninguém parecia disposto a ceder o lugar. Ela veio para recuperar o nome da mãe, mas ainda não sabia que a resposta que buscava ia mudar tudo antes do fim da tarde.
A reunião convocada por Uvaldo
A praça estava cheia de gente do Bairro Nobre e da Feira Velha misturada. Uvaldo bateu a bengala dourada no chão para pedir silêncio. Ele falou primeiro, como sempre, dizendo que tudo não passava de mal-entendido antigo. Amora esperou ele terminar. Quando chegou sua vez, ela subiu no degrau de pedra e abriu o papel.
— Este registro mostra que minha mãe tinha direito sobre a gleba. A segunda via estava no cofre da associação antiga. Ninguém conseguiu sumir com ela.
Cerejane tenta desacreditar
Cerejane riu alto, tentando chamar atenção para o outro lado. Disse que Amora estava confundindo papéis velhos com prova de verdade. Uvaldo concordou, repetindo que a família dele comprou tudo legalmente. Alguns vizinhos do bairro nobre murmuraram de apoio. Amora ficou quieta, deixando o papel circular entre as mãos que se estendiam.
Ela já tinha ouvido mentiras parecidas antes. O que doía era ver que ainda esperavam que ela aceitasse calada.
A oferta e a queda
Uvaldo chamou Amora de lado, voz baixa. Ofereceu dinheiro vivo, bastante para ela e Dona Melancia viverem sem trabalhar nunca mais. Disse que bastava ela rasgar o documento ali mesmo. Amora negou com a cabeça. Quando ele se virou para voltar ao centro da praça, a bengala escorregou dos dedos e caiu com estrondo no piso de pedra.
A fruta que vocês chamaram de pobre era dona do chão onde vocês construíram suas mansões.
A assembleia parou. O tabelião que estava presente confirmou a validade da segunda via. Votaram em voz alta. Os direitos de Uvaldo sobre parte das terras foram suspensos ali mesmo. Cerejane olhou para as casas ao redor e sentiu o chão faltar.
Amora guardou o papel de volta na bolsa. O dia ainda estava quente, mas ela pensava no que faria com aquelas terras agora. Não queria repetir o mesmo erro de separar as pessoas de novo. Abacatão estava na multidão, quieto, esperando. Ela sabia que a Feira Velha ia ficar diferente depois disso, e que talvez fosse hora de pensar em reconstruir sem expulsar ninguém.
