Clara e Abacácio estavam na sala quando a ideia de olhar a gaveta antiga surgiu. Dona Maçã tinha saído para comprar pão. O que eles ainda não sabiam era que a pior parte daquela tarde nem tinha começado.
A gaveta que ninguém abria
Abacácio puxou a madeira empenada com cuidado. Dentro havia papéis velhos, contas pagas e uma pasta de plástico amarelada. Clara tirou a pasta e abriu devagar. Uma fotografia rasgada ao meio caiu sobre a mesa. A imagem mostrava uma mulher jovem segurando um bebê recém-nascido. O rosto dela estava cortado, mas o bebê usava uma pulseirinha de hospital.
Clara pegou a foto e virou para a luz. A pulseira tinha um nome escrito à caneta. Melâncio. Ela olhou para Abacácio sem falar. Ele apertou os olhos, como se já esperasse algo assim.
A surpresa de Dona Maçã
A porta da frente abriu. Dona Maçã entrou com o saco de pão na mão e parou no meio da sala. Viu a foto na mesa e o rosto dela mudou. Ela largou o saco no chão sem perceber que o pão tinha caído.
— O que vocês estão fazendo? — perguntou, a voz baixa e rápida.
Clara tentou explicar que só estavam organizando. Dona Maçã estendeu a mão para pegar a foto. Abacácio segurou o braço dela com gentileza.
Eu sou sua mãe porque fui eu quem ficou quando todo mundo foi embora.
Dona Maçã repetiu a frase baixinho, mais para si mesma do que para eles. Depois pediu que destruíssem a foto. Ela não aguentava mais olhar para aquilo.
Melâncio reconhece a pulseira
Melâncio apareceu na porta da cozinha, atraído pela voz da mãe. Viu a foto que Clara ainda segurava e deu dois passos para dentro. Ele pegou a imagem sem pedir licença. Olhou o bebê, depois a pulseira. O nome era o dele.
— Isso sou eu? — perguntou, a voz já começando a subir.
Dona Maçã tentou tirar a foto da mão dele. Melâncio recuou. Abacácio ficou entre os dois, falando baixo para a mãe se acalmar. A casa ficou em silêncio. Só se ouvia o barulho da geladeira velha.
O que a foto escondia
Melâncio olhou de novo para a mulher cortada na foto. Ele queria saber quem era. Dona Maçã disse que não importava, que aquilo era coisa do passado. Mas a voz dela tremia tanto que ninguém acreditou. Clara sentiu o peito apertar. Abacácio pediu que Melâncio saísse um pouco para tomar ar.
Melâncio saiu pela porta dos fundos, ainda com a foto na mão. Clara o seguiu depois de alguns minutos. Do lado de fora, o portão enferrujado rangeu quando ela o empurrou. Eles ficaram ali, longe da sala, e a conversa começou a mudar de rumo. Abacácio observava da janela, sem conseguir se mexer.
