Dona Maçã abriu o envelope com as mãos trêmulas. O papel dentro falava de parcelas que ela nunca conseguiria pagar. O que ela ainda não sabia era que aquela cobrança ia trazer à tona algo que mudaria tudo dentro de casa.
A cobrança que chegou na porta
Melâncio estava na cozinha quando o carteiro bateu. Ele pegou o envelope primeiro, leu rápido e tentou guardar no bolso. Dona Maçã pediu para ver. Era um contrato de empréstimo feito no nome dela meses antes. As parcelas eram quase o dobro da aposentadoria.
— Isso não sou eu — ela disse, olhando o papel. — Eu nunca assinei nada disso.
Abacácio chegou pouco depois, chamado por Clara. Ele olhou o documento e franziu a testa. Melâncio negava tudo, dizia que devia ser engano do banco. Mas Abacácio já tinha visto aquele jeito dele antes.
A assinatura que não batia
Clara pegou a certidão de nascimento de Dona Maçã e o contrato. Colocou os dois lado a lado na mesa da sala. As assinaturas eram parecidas de longe, mas de perto não. Uma tinha um traço firme, a outra era mais solta, como se quem escrevesse tivesse pressa.
— Aqui a letra é diferente — ela apontou. — Dona Maçã, a senhora sempre assina assim?
Dona Maçã balançou a cabeça. O prato de arroz com feijão esfriava na mesa. Ninguém tocou na comida. Clara já desconfiava que Melâncio estava escondendo algo maior que o cartão roubado.
O cartão foi um erro. Isso aqui foi uma traição.
O que ele finalmente contou
Melâncio ficou em silêncio por quase um minuto. Depois soltou o ar e olhou para o chão. Admitiu que tinha falsificado a assinatura para conseguir o dinheiro. Disse que precisava de uma quantia maior do que o cartão dava.
— Parte eu gastei. Outra parte entreguei pra outra pessoa — ele falou baixo. — Não foi só pra mim.
Abacácio deu um passo à frente, mas Clara pediu calma. Dona Maçã sentou devagar na cadeira. A casa ficou em silêncio, só se ouvia o ventilador velho girando. A dívida não era o pior. Era saber que ele tinha arriscado a casa dela de propósito.
Clara guardou os papéis. Melâncio saiu para o quintal, batendo a porta mais forte que precisava. Abacácio ficou olhando a gaveta da sala, aquela que Dona Maçã sempre trancava quando alguém chegava perto. Clara percebeu que ele queria abrir aquilo, mas guardou a curiosidade por enquanto.
