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Preço da Ingratidão — Capítulo 4: O emprego da esquina

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Melâncio carregou caixas o dia inteiro no depósito da esquina, sentindo olhares e cobranças. No fim do expediente, Clara o esperava do lado de fora e os dois dividiram um silêncio que nenhum deles …

Melâncio chegou ao depósito às sete da manhã, com a camiseta branca apertada e o crachá ainda na mão. O dono, um homem de uns cinquenta anos chamado Seu Lopes, apontou para as caixas empilhadas e disse que o dia começava ali. Clara tinha insistido que ele não desistisse na primeira dificuldade. O que Melâncio ainda não sabia era que o fim daquele expediente guardava algo que ele não esperava.

O primeiro dia no depósito

As caixas pareciam não acabar nunca. Melâncio carregava uma atrás da outra, sentindo o suor escorrer pelas costas. Dois clientes que entraram o reconheceram e trocaram olhares. Ele fingiu não ver. Seu Lopes passou o dia inteiro cobrando ritmo: “Não é casa da sua mãe aqui, não.”

No intervalo, Melâncio sentou num caixote e olhou o crachá. Ele o prendeu torto na camiseta, sem espelho para ajustar. Pela primeira vez, o dinheiro que ganharia teria que vir com esforço de verdade.

Abacácio aparece no portão

Abacácio parou na porta do depósito perto do meio-dia. Veio só para provocar. “Olha só quem virou trabalhador”, disse, rindo baixo. Melâncio respondeu curto, sem parar o que estava fazendo. Abacácio notou que Clara tinha passado ali mais cedo e perguntado se Melâncio estava aguentando o serviço.

Ele não falou nada sobre isso. Só observou que o tom de Clara parecia diferente quando citava o nome de Melâncio agora.

A espera na calçada

Quando o expediente terminou, Melâncio saiu com as mãos sujas de poeira. Clara estava encostada no poste da esquina, segurando uma garrafa d’água. Ela não disse que tinha ficado esperando. Só estendeu a água e perguntou como tinha sido o dia.

Melâncio bebeu devagar. Nenhum dos dois comentou que aquilo parecia mais que uma visita de assistente social. Clara reparou no crachá torto e sorriu sem explicar por quê. Ela já sabia que ele não ia pedir ajuda para ajeitar.

Antes de se despedirem, Clara mencionou que tinha visto uma conta nova na mesa de Dona Maçã. Disse que parecia coisa antiga, de meses atrás. Melâncio não respondeu. Apenas olhou para o chão e guardou o crachá no bolso.