Beatriz serviu o vinho tinto nos cálices de cristal sem olhar para o filho. Rafael mexeu no garfo, deixou o prato intacto. Isadora sorriu para os convidados como se nada pudesse dar errado. O que ninguém ali sabia era que o anúncio que ele guardava mudaria o rumo daquele jantar antes mesmo da sobremesa chegar.
O jantar que ninguém queria
A sala de jantar do casarão mantinha o cheiro de cera de madeira antiga. Os talheres batiam baixinho nos pratos. Beatriz falava de números da confeitaria, Isadora concordava com a cabeça. Rafael ficou quieto até o meio da refeição. Então soltou a frase curta que parou tudo: queria adiar o casamento.
Isadora apertou o cabo da faca. Beatriz colocou o copo na mesa com força demais. Uma trinca fina apareceu no cristal. Ninguém comentou. O som do líquido vazando na toalha branca foi o único ruído por alguns segundos.
Clara entra com a sobremesa
Clara empurrou a porta da cozinha carregando a travessa de doces. Reconheceu o clima de sala de espera de hospital. Rafael não a olhou de frente. Isadora, sim. Sorriu de lado quando Clara colocou o primeiro prato na frente dela.
— A nova confeiteira, né? — perguntou uma convidada.
Isadora respondeu antes de Clara abrir a boca.
Tem gente que entra pela cozinha e pensa que pode sentar na mesa da família.
O silêncio voltou. Clara sentiu o rosto quente, mas continuou servindo.
A defesa que ninguém esperava
Rafael levantou a cabeça. Falou baixo, mas todo mundo ouviu. Disse que Clara tinha entrado pela porta certa e que ninguém ali precisava lembrar dela o lugar. Isadora virou o rosto devagar. Beatriz fechou os olhos por um instante, como quem conta até dez.
Clara terminou de servir e saiu. No corredor, parou um segundo antes de voltar para a cozinha. Ouviu Isadora perguntar, voz fina, por que uma funcionária nova já conseguia fazer o filho discordar da mãe em público.
Beatriz não respondeu. Apenas mandou servir café. Isadora, porém, já tinha decidido que ia descobrir tudo sobre aquela confeiteira antes do fim da semana.
