Clara entrou na cozinha de cobre da Confeitaria Valença com o avental novo nas mãos. Os vitrais vermelhos jogavam luz sobre as panelas antigas e o cheiro de açúcar queimado ainda pairava no ar. Ela queria só trabalhar bem no primeiro dia, mas a fotografia antiga que apareceu atrás do armário mostrou que o passado já estava ali esperando.
O primeiro dia na cozinha
Clara arrumou as formas e verificou as receitas que lhe deram. O forno era maior do que o dela em casa, mas ela já tinha visto algo parecido no caderno da mãe. Rafael passou pela porta dos fundos, olhou rápido e seguiu para o escritório sem dizer nada. Beatriz ficou no balcão da frente, falando baixo com a gerente.
Clara limpou a parte de trás do armário grande que guardava as bandejas. O móvel era pesado e raspava o chão quando ela o puxou um pouco. Algo branco apareceu preso na madeira, quase escondido pela poeira dos anos.
A fotografia antiga atrás do armário
Ela puxou o papel com cuidado. Era uma foto pequena, os cantos amarelados. Nela, uma mulher jovem coberta de farinha sorria ao lado de um homem mais velho. Os dois estavam na mesma cozinha, com as mãos sujas de massa. Clara reconheceu o rosto da mãe na hora. Minha mãe esteve aqui antes de mim.
Os olhos dela percorreram a imagem de novo. O homem parecia Augusto Valença, o fundador que Beatriz sempre citava. Nenhuma dúvida. A mãe nunca tinha falado de trabalhar aqui.
— Isso é meu — disse Beatriz, aparecendo de repente e arrancando a foto das mãos de Clara.
O pânico de Beatriz
Beatriz dobrou a fotografia depressa e guardou no bolso do blazer. O rosto dela ficou vermelho, mas ela não explicou nada. Clara ficou parada, sem saber se devia pedir desculpa ou perguntar. Beatriz saiu da cozinha sem olhar para trás.
Rafael estava na porta lateral e viu tudo. Ele notou o jeito que a mãe apertou a foto e o susto que não combinava com a calma de sempre. Depois do almoço, ele foi até o arquivo antigo da empresa e começou a procurar os livros de registro dos funcionários de vinte anos atrás.
