Beto acordou sentindo o cheiro de gordura velha que vinha da cozinha. Lena já estava de pé, empilhando pratos sujos no balcão sem fazer barulho. A casa parecia ter engolido os dois nos últimos meses, com caixas de comida empilhadas no chão e uma caixa de pizza esmagada ao lado do sofá. O que os dois ainda não sabiam era que o dia ia terminar com uma decisão que nenhum deles planejava tomar.
A casa bagunçada que ninguém via
Lena tentou abrir a janela, mas a pilha de roupas impediu. Beto passou por ela sem comentar, pegando a chave da lanchonete no armário. Eles viviam assim fazia tempo, fingindo que a bagunça era só temporária. Ele disse que ia abrir a loja cedo, como sempre. Lena assentiu, mas ficou olhando a louça que sobrara da noite anterior.
— Deixa que eu levo as crianças depois — ele falou, já na porta.
Ela não respondeu. Sabia que a lanchonete precisava dele mais do que a casa.
O susto na lanchonete
Meio-dia, Beto carregou uma caixa pesada de refrigerante até o fundo do balcão. Sentiu o peito apertar de repente e o chão pareceu inclinar. Lena estava ali, limpando a mesa, e correu quando o viu apoiar a mão na parede. O cliente que esperava o sanduíche ficou olhando em silêncio. Beto sentou no chão, suando, e Lena ajoelhou ao lado dele segurando o braço.
— Respira. Respira devagar — ela repetiu.
Ele fechou os olhos. Quando voltou a si, a caixa ainda estava aberta no chão. Nenhum deles falou nada por alguns minutos. Depois, Lena limpou a testa dele com o pano do balcão.
A frase que ficou no ar
À tarde, já em casa, os dois ficaram sentados na mesa da cozinha sem tocar na comida que Lena havia esquentado. Os pratos sujos ainda estavam ali. Beto olhou em volta e soltou o que vinha guardando.
— Parece que a gente desistiu de tudo.
Lena ficou quieta. Depois concordou com a cabeça. Eles falaram de médico, de comer melhor, de arrumar a casa aos poucos. Beto disse que não queria perder a alegria, mas também não queria passar mal de novo. Lena disse que queria fazer junto. Eles fizeram um pacto para mudar ali mesmo, sem lista, sem data certa, só a promessa de um ajudar o outro.
A travessa que chegou à noite
Dona Dalva bateu na porta depois das nove. Entrou sem esperar, carregando uma travessa grande coberta com papel alumínio. O cheiro de queijo derretido encheu a sala antes mesmo de ela falar. Beto olhou para Lena. Lena olhou para o chão.
— Trouxe pra vocês não passarem fome — disse a mãe, pousando a travessa em cima das revistas velhas. — Lasanha feita hoje. Com bastante queijo, do jeito que vocês gostam.
Ela sentou no sofá, tirando uma blusa dobrada do caminho. Beto agradeceu baixo. Lena não mexeu na travessa. Dona Dalva comentou que mudança era coisa de gente que tem tempo sobrando. Beto olhou para a mulher. Lena sentiu o peso da lasanha ali no meio da sala, como se a casa soubesse que o pacto ainda era frágil. Eles comeram em silêncio depois que a mãe foi embora, e a caixa de pizza esmagada continuou onde estava.
