Na sala abafada da casa de Vila Esperança, Dona Maçã viu a conta vencida amassada sobre a mesa e sentiu o cheiro de umidade que subia do chão rachado. O par de tênis novo brilhava ali no meio, fora de lugar. Ela ainda não sabia que a pior parte daquele dia ia deixar ela sem forças para levantar.
A conta sobre a mesa
Dona Maçã segurou o papel com a mão trêmula e leu o valor de novo. A aposentadoria mal dava para o remédio e a luz. Ela chamou o filho pelo nome baixo, sem levantar a voz logo de cara.
Melâncio estava no quarto, mexendo no celular. Quando apareceu na porta, olhou rápido para os pés dela e depois para o chão. O tênis novo estava ali, bem visível.
O tênis que ele não explicou
— Mãe, isso aí é só uma coisa que eu peguei emprestado — disse ele, já na defensiva.
Dona Maçã apontou para o papel. O banco tinha mandado a mensagem de confirmação no celular dela de manhã. O valor batia com o que faltava na conta. Melâncio tinha usado o cartão dela outra vez.
Ele ficou quieto por uns segundos. Depois falou que ia devolver quando arrumasse um bico. A voz saiu arrastada, como quem repete uma desculpa velha.
A frase que não tinha resposta
— Devolver com quê, Melâncio? Você não trabalha — ela falou, a voz mais alta agora. O dedo batia no papel da conta. — Essa aposentadoria é o que sobra depois de você tirar tudo.
Melâncio deu um passo para trás. A vergonha veio misturada com raiva, mas ele não tinha o que responder. O tênis continuava no chão, branco contra o cimento rachado.
Ela sentiu o peito apertar de repente. Tentou puxar ar e não conseguiu direito. O corpo fraquejou devagar, até ela cair ao lado da mesa, o braço batendo no chão de cimento.
Melâncio ficou parado, olhando para a mãe no chão. O celular dela tocou uma vez e parou. Ele pensou em chamar alguém, mas a casa estava silenciosa demais. O tênis novo continuava ali, perto dela, como se nada tivesse mudado.
