Sérgio acordou antes do despertador tocar. A casa estava silenciosa, só se ouvia o barulho baixo da geladeira. Ele acendeu a luminária pequena que comprara na semana anterior e abriu o caderno em cima da mesa da cozinha. As botinas sujas ainda estavam no chão, exatamente onde ele tirara antes de deitar. O que ele ainda não sabia era que aquela noite de estudo guardava uma resposta que ele procurava fazia meses.
A luminária às duas da manhã
Ele folheou as páginas do curso noturno. O cansaço pesava nos ombros, mas ele sabia que parar agora significava voltar para onde estava antes. As meninas dormiam no quarto ao lado. Bia tinha espirrado o dia todo e Lara reclamara da lição de casa. Ele precisava de um jeito de estar mais presente, não só de pagar as contas.
Duas meninas dependem de eu não desistir. A frase ficou repetindo na cabeça dele enquanto copiava um desenho técnico. A mão doía de tanto segurar o lápis depois de um dia inteiro com a colher de pedreiro.
Roberta e as dúvidas técnicas
Na obra, Roberta parou ao lado dele durante o intervalo. Perguntou sobre o exercício que ele mostrara no dia anterior. Sérgio explicou o que tinha entendido sozinho. Ela corrigiu um cálculo com calma, sem fazer alarde. Os dois sabiam que aquilo não era só ajuda de colega. Ela guardava o olhar um segundo a mais antes de voltar para a prancheta.
Ela já desconfiava que o sentimento não cabia só na obra. Mesmo assim, continuou explicando fórmulas como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sérgio agradeceu com um aceno de cabeça e voltou para o serviço.
O resultado que chegou de surpresa
Três semanas depois, o e-mail do curso apareceu na caixa de entrada do celular velho. Sérgio leu duas vezes antes de acreditar. Uma das melhores notas da turma. Ele ficou parado no meio da cozinha, o prato de feijão ainda quente na mão. Não contou para ninguém na hora. Só guardou o celular no bolso e saiu para buscar as meninas na escola.
Dirceu o esperava no barracão no fim do expediente. Falou baixo, como sempre. Disse que a próxima obra precisava de alguém para comandar. Alguém que conhece o peso de cada tijolo. Sérgio ouviu sem interromper. O mestre de obras veterano sorriu de leve e deu um tapinha no ombro dele.
Agora era hora de decidir se estava pronto para o que vinha depois. O sol ainda batia forte no canteiro quando Dirceu mencionou que precisariam de um novo mestre logo. Sérgio olhou para o capacete velho no chão e pensou no que aquilo poderia mudar para as meninas.
