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Do Cinema ao Topo — Capítulo 6: Você nasceu para mais

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No barracão da obra, Dirceu oferece a Sérgio uma chance de curso técnico. O pedreiro ainda não sabe que aquela conversa vai mudar as noites que vêm pela frente.

Sérgio guardava as ferramentas no barracão quando viu a prancheta velha encostada na parede. Seu Dirceu parou do lado e pediu para conversar longe dos outros. O pedreiro sentiu o cansaço do dia inteiro no corpo, mas assentiu. Só mais tarde entenderia que aquela conversa mudaria o jeito como ele via as madrugadas que vinham pela frente.

A prancheta no barracão

Dirceu puxou uma cadeira de plástico e sentou. Falou baixo, como quem não quer chamar atenção. Disse que estava perto de se aposentar e precisava de alguém para assumir mais responsabilidades na obra. Sérgio ouviu em silêncio, mexendo na colher de pedreiro que ainda estava suja de massa.

— Você tem jeito, moleque. Só falta um empurrão.

Sérgio balançou a cabeça. Pensou nas meninas em casa, na conta de luz que precisava pagar, nas noites que já mal dormia. Não dá pra prometer nada agora, pensou.

O deboche do encarregado

Antes que pudesse responder, o encarregado apareceu na porta do barracão. Riu baixo e falou alto o suficiente para os outros ouvirem. Disse que pedreiro nascia pra carregar tijolo, não pra dar ordem. Que quem não tinha estudo não servia pra mandar em obra. Sérgio sentiu o rosto quente, mas ficou quieto. Dirceu não respondeu na hora. Só olhou o homem de lado até ele ir embora.

Quem conhece o peso de cada tijolo pode entender uma obra melhor que muito homem de escritório.

Dirceu falou isso depois, só para Sérgio. A frase ficou no ar entre os dois.

A informação que chegou na hora certa

Dirceu abriu a pasta que trazia debaixo do braço e entregou um papel dobrado. Era o folheto do curso noturno de edificações. Disse que tinha vaga e que a inscrição terminava na semana seguinte. Sérgio segurou o papel, olhou o endereço e o horário. Pensou em Tati, nas dívidas que ela deixou, nas filhas que agora dependiam só dele. Estudar significava dormir menos. Significava arriscar e talvez não dar conta.

Mas pela primeira vez em muito tempo ele sentiu que podia escolher algo diferente. Dobrou o papel com cuidado e guardou no bolso da calça. Quando saiu do barracão, o sol já estava baixo. Ele caminhou até o ponto de ônibus pensando nas noites que viriam. A casa alugada ainda tinha roupa para lavar e janta para fazer, mas o papel no bolso parecia mais pesado que qualquer ferramenta.