Sérgio acordou cedo na casa alugada ainda cheia de caixas. As meninas dormiam no quarto dos fundos. Ele separou o café e pensou que precisava chegar na obra antes das sete. O que ele ainda não sabia era que Bia acordaria com febre e que o dia inteiro mudaria por causa disso.
O desenho na mesa da cozinha
Lara tinha deixado o papel em cima da mesa. O desenho mostrava três figuras de mãos dadas: ele no meio, Lara de um lado, Bia do outro. As cores eram de caneta esferográfica. Sérgio guardou o papel na gaveta sem dizer nada.
Dona Helena chegou com um saco de pão. Ela olhou para as caixas empilhadas e suspirou. “Você precisa de mais alguém aqui durante o dia”, disse ela. Sérgio respondeu que daria conta. Dona Helena não insistiu, mas ficou mais tempo que o combinado.
Quando Bia acordou quente
Bia reclamou da garganta ainda de pijama. A febre subiu rápido. Sérgio molhou um pano e colocou na testa dela. Ele ligou para a obra avisando que chegaria atrasado. O encarregado não gostou.
Lara tentou preparar o lanche da irmã sozinha. Ela cortou a maçã em pedaços pequenos e colocou no prato. Sérgio viu aquilo e pediu que ela parasse. “Você é criança ainda”, falou baixo. Lara não respondeu, só ficou olhando o prato.
Ele tentou achar alguém para ficar com Bia. Ligou para duas vizinhas. Nenhuma podia. Olhou o relógio e calculou o tempo de ônibus até a obra. Se saísse agora, perderia metade do dia. Se ficasse, perderia a diária inteira.
A frase que ele repetiu no telefone
Sérgio ligou de novo para a obra. Disse que não ia conseguir ir. O encarregado reclamou do prazo apertado. Sérgio repetiu: “Eu posso perder um dia de serviço, mas não vou perder a infância das minhas meninas.” Depois desligou.
Dona Helena ficou em silêncio um minuto. Depois pegou a bolsa e falou que ia comprar remédio. Antes de sair, tocou no ombro dele. “Você não está sozinho nisso”, disse ela. A voz saiu mais baixa do que o normal.
O recado de Seu Dirceu
À tarde, o celular tocou. Era Seu Dirceu. Ele tinha passado na obra e perguntado por Sérgio. Ouviu a história da filha doente e não reclamou. Falou que o serviço podia esperar um dia.
Depois de um silêncio, Dirceu continuou. Disse que tinha visto o esforço de Sérgio nos últimos meses. Falou que existia uma vaga num curso técnico de edificações para quem quisesse estudar de verdade. “Se você tiver interesse, eu falo com a pessoa certa”, completou. Sérgio ficou olhando para a parede branca da sala ainda sem quadro.
Ele agradeceu sem prometer nada. Guardou o telefone no bolso. Bia dormia no sofá com o cobertor leve. Lara coloria em silêncio do outro lado da mesa. Sérgio pensou que precisava decidir logo se aceitava ou não. O desenho das três mãos dadas estava guardado na gaveta da cozinha.
