Sérgio ficou sentado na sala depois que as meninas foram para o quarto. A aliança estava sobre a mesa, ao lado do copo vazio. Ele sabia que aquela conversa não ia terminar fácil, mas ainda não tinha ideia de como Tati ia reagir quando ouvisse o que ele planejava.
A aliança sobre a mesa
Tati chegou da cozinha e parou na porta. Olhou para o anel e depois para ele. “Vai ficar aí o dia todo olhando isso?”, perguntou. A voz saiu mais baixa do que de costume. Sérgio respirou fundo antes de responder. “Sente aqui. Preciso falar com você.”
Ela se sentou devagar. O silêncio da casa parecia maior agora que Lara e Bia dormiam. Sérgio apontou para os papéis que já tinha separado na mesa. “Eu descobri o resto das dívidas. Não dá mais pra continuar assim.”
A ameaça sobre as crianças
Tati apertou os braços contra o peito. “Você não vai levar as meninas. Eu sei que você não tem onde ficar.” Ela falou baixo, mas as palavras saíram cortando. Sérgio sentiu o peito apertar, mas não desviou o olhar. “Eu não estou abandonando minha família; estou parando de abandonar a mim mesmo.”
Ele repetiu a frase em voz baixa, quase pra si mesmo. Tati ficou em silêncio por alguns segundos. Depois começou a dizer que ia dificultar tudo, que ia contar pros pais dele, que ia pedir pensão maior. Sérgio ouviu tudo sem interromper. Quando ela parou, ele só disse: “Faça o que quiser. Eu vou pagar o que for justo, mas não vou ficar aqui.”
Ela não respondeu. Apenas pegou a aliança da mesa e guardou no bolso.
A manhã com Dona Helena
No dia seguinte, Sérgio acordou cedo. As meninas ainda dormiam. Ele pegou o telefone e ligou para Dona Helena, a vizinha que sempre ajudava com as meninas quando o serviço apertava. Ela atendeu no terceiro toque e ouviu tudo sem interromper. “Traga elas aqui hoje à tarde”, disse ela no final. “A gente organiza a rotina enquanto você procura um lugar.”
Sérgio desligou e ficou olhando pela janela. O ônibus já passava lotado na rua. Ele pensou no trabalho que tinha pela frente, nos boletos que ainda vinham e no quanto custaria começar de novo. Mas pela primeira vez em muito tempo, a ideia de sair de casa não parecia impossível.
