Pêssega guardava o teste de gravidez embrulhado num lenço rosa dentro da bolsa. Ela sentia o embrulho roçar na mão toda vez que o dedo tocava o tecido. Semente ainda não sabia, mas a decisão que ele vinha adiando ia ter que ser tomada agora.
O lenço rosa na mesa
Ela chegou na casa dele depois da aula, já quase escurecendo. A mãe de Semente ainda não tinha voltado do trabalho. Pêssega tirou o teste da bolsa e colocou em cima da mesa sem desembrulhar. Semente olhou o volume e ficou quieto por um tempo.
— É isso que você tá escondendo faz dias? — ele perguntou por fim.
Ela assentiu. Desenrolou devagar o lenço. As duas linhas apareciam claras. Semente encostou a mão na mesa e respirou fundo. Não disse que ia dar tudo certo. Só ficou olhando.
A náusea que não passava
Pêssega contou que vinha sentindo enjoo toda manhã e que a mãe dela já desconfiava de alguma coisa. Falou também do plano de separar os dois e de como agora parecia ainda mais urgente sair do morro. Semente ouviu tudo sem interromper. Quando ela terminou, ele perguntou se ela tinha certeza de que queria criar o bebê ali.
— Eu quero que você decida junto comigo — ela respondeu. — Não quero que fique só na minha conta.
Semente falou do pai desaparecido e de Espinho. Disse que precisava entender o que aconteceu antes de pensar em fugir. Pêssega ficou em silêncio um momento, depois balançou a cabeça. Ela já tinha medo de que ele fosse escolher o passado.
Dona Bananinha chega em casa
A porta abriu e a mãe entrou carregando as sacolas do mercado. Viu o teste em cima da mesa e parou no meio do caminho. Largou tudo no chão. Olhou para o filho e depois para Pêssega. O rosto dela mudou de cansado para assustado em segundos.
Ela mandou Pêssega sentar e foi até a cozinha pegar um copo d’água. Quando voltou, já tinha decidido que não ia mais guardar o que sabia. Esse bebê precisa de um pai vivo, não de uma vingança, ela disse sem levantar a voz. Semente olhou para ela sem entender direito.
Ela foi até o quarto dos fundos e voltou com uma caixa de sapato velha.
Dona Bananinha sentou na cadeira ao lado do filho. Abriu a caixa devagar e tirou uma fotografia amarelada. Na imagem via-se o pai de Semente, ainda jovem, ao lado de Espinho que parecia ter uns vinte anos. Os dois sorriam como se fossem próximos. Semente pegou a foto e ficou olhando os dois rostos. A mãe não disse mais nada por enquanto.
