Dona Bananinha acendeu a vela devagar, como fazia toda semana. A chama tremia um pouco diante da foto velha do marido. Ela guardava aquele ritual em segredo, mesmo depois de tantos anos. O que ela ainda não sabia era que o filho ia entrar na sala antes da hora e mudar o rumo daquela noite.
A foto que ela tentou esconder
A casa estava quieta, só o barulho distante dos carros lá embaixo no asfalto. Dona Bananinha ajoelhou no chão duro e rezou baixo. Quando ouviu o rangido da porta, escondeu a foto atrás do vaso de flor murcha.
Semente parou no meio da sala. O cheiro de cera ainda pairava no ar.
— Mãe, o que você tá fazendo com a foto do pai?
Ela se levantou devagar, limpando as mãos na saia. O rosto ficou sério de repente.
— Nada que te interesse agora, filho. Algumas coisas é melhor deixar quietas.
O que a mãe não queria contar
Semente deu um passo à frente. A foto já estava quase visível de novo.
— Eu só quero saber o que aconteceu com ele. Todo mundo no morro fala que foi coisa do Espinho. Você sabe de algo?
Dona Bananinha apertou os lábios. O medo apareceu nos olhos dela, aquele medo antigo que nunca sumia.
— Seu pai não sumiu porque quis. Algumas verdades podem te matar, Semente. Deixa isso pra lá.
Ele balançou a cabeça, sem entender por que ela escondia tanto. A casa pareceu menor de repente.
Pêssega e a verdade que escapou
Pêssega bateu na porta aberta. Trazia um pote de comida que a mãe dela mandara. Olhou para os dois e sentiu o peso no ar.
— Dona Bananinha, eu vim falar com o senhor. Não dá mais pra fingir que a gente não se gosta. Eu amo seu filho, mesmo minha família falando que é loucura.
A mãe de Semente ficou em silêncio por um instante. Depois olhou para a filha da vizinha e soltou o que guardava havia tempo.
Seu pai não sumiu porque quis.
Semente estava no corredor, voltando do banheiro. Ouviu só essa frase. Parou ali mesmo, coração batendo forte. Pêssega e a mãe continuaram falando baixo, sem perceber que ele escutava.
Ele não esperou o resto. Saiu pela porta dos fundos sem fazer barulho. A decisão já estava tomada na cabeça: ia descobrir sozinho o que Espinho tinha a ver com o sumiço do pai. Nada mais ia impedir isso.
