Semente subiu a viela estreita com o pulso ainda quente do toque de Pêssega. Depois da conversa com Laranjinha, ele precisava de alguém que não mentisse. A noite caía sobre o morro e as luzes das lajes começavam a piscar.
A pulseira simples
Pêssega esperava sentada no degrau de casa. Trazia uma pulseira de miçanga azul no bolso. Colocou no pulso dele sem pedir licença. Isso aqui é pra lembrar que tem outro caminho, ela disse baixo. Semente olhou a pulseira e sentiu o peso de tudo que não conseguia largar.
Ela contou que a mãe queria mandá-la para o interior, para casa de uma tia. Não querem que eu fique aqui com você, completou. Semente apertou a mão dela. Prometeu que ia sair daquela vida, mas primeiro precisava entender o que tinha acontecido com o pai.
O que ele ainda não contava
Pêssega quis saber por que não podiam simplesmente ir embora. Você sempre fala em sair, mas nunca sai, ela falou. Semente explicou que largar a investigação era como deixar o pai pra trás de novo. A pulseira apertava no pulso dele, fria agora.
Os dois ficaram em silêncio um tempo. O barulho do ventilador da cozinha da vizinha enchia o ar. Semente tocou o rosto dela. Eu te amo, mas não vou amar um morto, Pêssega disse de uma vez. As palavras ficaram no ar entre eles.
Antes de ir embora
Pêssega levantou para voltar pra dentro. Sentiu uma náusea forte e parou no meio do caminho. É só cansaço, ela murmurou, mas não olhou pra ele. Semente ofereceu água. Ela recusou e guardou o teste de gravidez enrolado num lenço dentro da bolsa, sem que ele visse.
Quando ela fechou a porta, Semente ficou na viela olhando a pulseira. O morro parecia mais quieto que o normal. Ele pensou em descer até a esquina de novo, mas o gosto da promessa que tinha feito ainda estava na boca.
