Semente parou na porta do barraco de Espinho e viu o reflexo dele num espelho rachado. A cicatriz no rosto do homem parecia mais funda que o normal. Ele já tinha visto aquilo antes, mas agora a marca parecia contar algo que ninguém dizia em voz alta.
O espelho rachado
Espinho virou devagar. Tinha um copo na mão e o cheiro de cachaça misturado com suor. Olhou Semente de cima a baixo, como se medisse quanto o garoto já sabia.
“Você andou fazendo perguntas demais”, disse Espinho. A voz saiu baixa, quase cansada. Semente ficou quieto. Não sabia por onde começar.
O homem passou a mão na cicatriz sem perceber. “Seu pai tentou sair daqui também.”
Seu pai tentou sair daqui também.
O que Espinho deixou escapar
Semente sentiu o peito apertar. Queria perguntar se o pai estava morto, mas a palavra não saía. Espinho continuou, oferecendo mais dinheiro do que o combinado, dizendo que podia proteger a mãe dele. Era a mesma conversa de sempre, só que agora soava falsa.
Ele pensou em Laranjinha. Ninguém mais sabia que ele estava investigando o sumiço do pai. Só o amigo. A certeza desceu como uma pedra.
Espinho riu sem humor. “Não precisa ficar bravo. É só negócio.” Semente não respondeu. Saiu do barraco com as mãos fechadas.
A viela depois da conversa
Laranjinha estava encostado na parede de uma casa mais embaixo, mexendo no celular. Quando viu Semente, tentou sorrir como sempre. O sorriso morreu no meio.
Semente parou na frente dele. A voz saiu baixa, sem grito. “Quanto valeu a amizade dos dois?” Laranjinha olhou para os próprios pés. Não respondeu. O silêncio entre eles pareceu durar o resto da tarde.
