Rafael subiu as escadas do terraço carregando o crachá de office-boy na mão. O relógio do avô já estava ali, deixado por Antunes mais cedo. Beatriz esperava encostada no parapeito, os braços cruzados. O que os dois ainda não sabiam era que aquela conversa mudaria o jeito de cada um encarar o que restava da Villela Corp.
O crachá sobre o parapeito
O sol já tinha sumido atrás dos prédios. Rafael parou a alguns passos dela e colocou o crachá na beirada de concreto, ao lado do relógio antigo. O plástico gasto contrastava com o metal polido.
— Eu não queria que você descobrisse assim — ele disse, baixo.
Beatriz olhou para o crachá, depois para ele. — Eu não ligo pro dinheiro. Ligo pra mentira.
A frase que ela guardava
Ela respirou fundo. O vento batia fraco nos vidros da cobertura. Rafael esperou, as mãos nos bolsos do terno que agora parecia pesado demais.
— Eu me apaixonei pelo homem que você fingia ser — Beatriz falou devagar —, e agora preciso saber se ele existe de verdade.
Eu me apaixonei pelo homem que você fingia ser, e agora preciso saber se ele existe de verdade.
Rafael sentiu o peito apertar. Não respondeu de imediato. Olhou para o crachá, depois para o rosto dela. — Eu quero que você fique. Não por causa do que eu sou agora. Por causa do que você já mostrou que é.
A decisão que veio depois
Ele contou que tinha mandado as provas para a polícia naquela tarde. Otávio e Cristina não voltariam. Beatriz escutou sem interromper. Quando ele terminou, ela ficou em silêncio por um tempo.
— Eu aceito o cargo — ela disse por fim. — Mas quero que seja por mérito, não por… isso.
Rafael assentiu. — É por mérito. Você já estava fazendo o trabalho de três pessoas antes de eu aparecer.
Ela deu um passo à frente. Não sorriu, mas também não afastou quando ele estendeu a mão. Caminharam juntos até a porta do elevador. O crachá ficou ali, no parapeito, ao lado do relógio. Nenhum dos dois voltou para pegá-lo.
