Rafael desceu do elevador executivo com o jaleco simples de office-boy. O relógio antigo no pulso brilhava só para quem olhasse de perto. Ele precisava passar trinta dias assim, sem que ninguém soubesse quem ele era de verdade. O que ele ainda não sabia era que o primeiro dia ia deixar marcas que nenhum disfarce conseguiria esconder.
O primeiro café no andar errado
Ele carregava a bandeja com xícaras e biscoitos. O corredor parecia maior do que lembrava. Ninguém o reconhecia. Uns olhavam de relance e voltavam para as telas. Outros nem levantavam os olhos.
Otávio saiu da sala dele e parou no meio do caminho. O gerente apontou para uma pilha de papéis que tinha caído perto da mesa da recepção.
“Você aí. Junta isso antes de servir.”
A bandeja no chão
Rafael parou. A bandeja pesava nas mãos. Otávio deu dois passos à frente e, com o ombro, derrubou tudo. O café esparramou, as xícaras quebraram. Um silêncio rápido caiu no corredor.
“Gente como você é descartável”, disse Otávio, voz alta o bastante para todo mundo ouvir. “Limpa isso agora.”
Rafael se agachou. Os dedos pegaram os cacos devagar. O café frio molhou a manga do jaleco. Ninguém ajudou. Alguns viraram a cadeira para não ver.
Ele juntou tudo sem falar uma palavra. Quando terminou, Otávio já tinha voltado para dentro da sala. O nome do gerente ficou gravado na cabeça dele.
O fim do expediente
Às seis, o andar já estava quase vazio. Rafael sentou num canto do depósito de material, tirou um bloco pequeno do bolso e escreveu: Otávio Menezes. Depois guardou o bloco de novo.
Sr. Antunes observava da porta do corredor lateral. O velho não se aproximou. Só ficou ali, quieto, vendo o neto do patrão guardar o caderno. Ele sabia que o teste do avô tinha começado de verdade.
Rafael levantou e caminhou até o elevador. No lobby, a recepcionista de cabelo preso guardava as coisas. Ela olhou rápido para o jaleco sujo e depois para o relógio dele, mas não disse nada. Rafael sentiu o olhar e seguiu em frente. O dia ainda não tinha acabado de verdade.
