Beatriz deixou a bolsa aberta atrás da recepção, como sempre fazia nas tardes mais corridas. A caixa pequena de veludo azul estava lá dentro agora, entre o protetor labial e o bilhete do banco. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
A caixa que ninguém viu chegar
Cristina passou pela recepção pouco depois do almoço. Parou só o tempo de ajustar o próprio colar no espelho e foi embora. Otávio veio minutos depois, fingindo checar um relatório que não existia. Ele olhou a bolsa aberta, sorriu de canto e seguiu para a sala dele.
Beatriz voltou do banheiro e nem percebeu a diferença. Atendeu três ligações, imprimiu dois crachás de visitante e guardou a bolsa debaixo da mesa quando o telefone tocou de novo. O dia seguia normal.
A acusação de roubo na frente de todos
Foi Otávio quem chamou atenção primeiro. Ele desceu com Cristina e mais dois funcionários do andar de cima. Parou na frente da mesa de Beatriz e apontou para a bolsa.
“Abra isso agora.”
Beatriz ficou vermelha. “Por quê?”
“Porque alguém relatou que itens de valor desapareceram. E a sua bolsa está aberta.”
Ela abriu devagar. A caixa de veludo azul apareceu entre os papéis. Dentro tinha um anel de prata com pedra azul. Cristina cruzou os braços. “Isso é da minha mesa. Eu reconheço.”
Beatriz sentiu o peito apertar. “Eu não peguei isso. Nunca vi.”
Um dos funcionários murmurou algo sobre recepcionista não ter voz aqui. Beatriz olhou para o chão. O prato de comida que ela tinha esquentado no micro-ondas continuava na mesa, esfriando.
O office-boy que não podia falar
Rafael estava no corredor com uma pilha de pastas. Ouviu tudo. Queria dizer que a caixa não estava ali de manhã, que ele tinha visto Cristina passar. Queria dizer que Beatriz não era do tipo que rouba. Mas era só o office-boy. Abriu a boca e fechou de novo.
Beatriz olhou para ele uma vez, rápido. Parecia pedir ajuda sem pedir. Ele apertou as pastas com mais força.
A câmera que o avô mandou instalar
Quando todo mundo subiu de volta, Rafael desceu até a sala de monitoramento. O Sr. Antunes tinha mostrado o lugar uma vez, “caso precise”. Ele achou o ângulo da recepção e rebobinou a fita das últimas duas horas. Cristina apareceu clara na imagem. Parou, abriu a bolsa de Beatriz, colocou a caixa e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
Rafael parou o vídeo. A fúria era calma, mas era fúria. Ele guardou o pen drive no bolso e subiu de novo. Na última escada pensou que não dava mais para continuar fingindo que era só um office-boy. A reunião disciplinar estava marcada para o dia seguinte. Ele já sabia que ia precisar decidir até onde podia chegar sem revelar tudo.
