Ana Clara carregava a cesta de ovos quando o carro prata parou na porteira. A poeira vermelha ainda pairava no ar quando o homem de terno bege desceu. Ele perguntou o nome dela sem tirar os óculos escuros. Ela respondeu devagar, sentindo o peso da cesta nos braços.
O carro prata na porteira
Wilson Amaral se apresentou como preposto de uma construtora. Falou baixo, com educação de quem está acostumado a entregar más notícias. Ana Clara parou perto da cerca de arame farpado e esperou. O sol batia forte nas sete da manhã e o carro ainda estava ligado.
Ela confirmou que era filha de Joaquim Ferreira de Souza. Disse que o pai tinha sumido fazia doze anos. Wilson abriu a pasta de couro em cima do capô quente e tirou um papel dobrado. A escritura estava datada de cinco anos depois do desaparecimento.
A assinatura que não podia existir
Ana Clara leu o nome do pai no final da folha. A letra estava torta, mas era a dele. Ela já desconfiava que alguma coisa tinha ficado para trás, mas nunca imaginou que fosse um documento. Wilson apontou a data com o dedo indicador.
“Eu sou só o portador, minha senhora. A senhora tem trinta dias pra desocupar a área.”
Ele fechou a pasta devagar. O motor do carro continuava ligado. Ana Clara sentiu os dedos formigando ao redor do cabo da cesta.
A gema amarela na poeira
A cesta escorregou antes que ela pudesse segurar. Os ovos caíram um por um na terra batida. As gemas se abriram e misturaram com a poeira vermelha. Ana Clara olhou para baixo, mas não se abaixou para limpar. Wilson entrou no carro sem oferecer ajuda.
O carro deu ré devagar e seguiu pela estrada. A poeira levantou de novo e cobriu as marcas dos pneus. Ana Clara ficou parada, os pés descalços na terra quente.
Do outro lado da cerca
Seu Firmino observava escondido atrás do mourão mais largo. Tinha visto tudo desde o primeiro minuto. Apertava o chapéu de palha contra o peito com as duas mãos. Quando o carro desapareceu, ele virou as costas sem chamar por ela.
O vento seco passava entre as folhas secas do pé de ipê. Firmino já sabia que esse dia ia chegar, mas não esperava que fosse tão cedo. Ele caminhou devagar pelo pasto, o chapéu ainda apertado no peito. A unha preta do polegar direito estava suja de terra.
