O ônibus estava lotado e o calor apertava dentro da Mooca. Marcos segurava as marmitas com uma mão só, tentando não esbarrar em ninguém. Ele precisava vender pelo menos dez para levar dinheiro pra casa. O que ele ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
Ônibus lotado na Mooca
Marcos subiu no ônibus da linha 373 com as marmitas ainda quentes. A camisa velha grudava nas costas. Alguns passageiros olhavam de lado, como se o cheiro de comida caseira incomodasse. Ele ficou perto da porta, chamando baixo: “Marmita de frango com arroz, cinco reais”.
Uma mulher de terninho apertou a bolsa contra o peito. Um rapaz de fone de ouvido não tirou os olhos do celular. Marcos repetiu o preço duas vezes. Ninguém respondeu.
A marmita caída no chão
O ônibus freou forte na avenida. Uma das marmitas escorregou da pilha e caiu aberta no chão. O molho espalhou, o frango rolou. Marcos agachou rápido, mas o estrago já estava feito. O rapaz do fone riu baixo.
“Desculpa, cara”, disse o homem que estava ao lado. “Eu não vi.” Marcos não respondeu. Limpou o que pôde com o guardanapo que trazia no bolso. A vergonha queimava mais que o calor.
Ele se levantou devagar. “Minha roupa pode ser velha, mas eu não sou menos homem que você”, falou sem gritar. O rapaz tirou o fone, olhou para o lado e não disse nada. O ônibus andou de novo.
Contando moedas na calçada
No fim da tarde Marcos sentou no meio-fio em frente ao restaurante Ferraz. Tinha vendido só quatro marmitas. Contava as moedas uma por uma, separando as de um real das de cinquenta centavos. O prato de comida que Carla tinha feito pra ele esfriava dentro da sacola.
Ele guardou o dinheiro no bolso e ficou olhando a porta de vidro do restaurante. Um homem de terno saiu, parou e apontou para a última marmita que ainda restava.
— Posso provar?
Augusto abriu a tampa, cheirou e pegou um garfo descartável que Marcos ainda tinha. Comeu devagar, em pé, sem pressa. Quando terminou limpou a boca com o guardanapo.
— Amanhã às sete da noite você aparece lá dentro — disse. — Quero ver você cozinhando de verdade.
Marcos guardou a última marmita vazia. O dia tinha sido ruim, mas pela primeira vez alguém olhava para ele como se a comida importasse. Ele guardou as moedas e caminhou em direção ao ponto de ônibus, pensando no que ia contar pra Carla.
