O escritório de Fernando exalava o cheiro de couro envelhecido e papel molhado. Lá fora, a chuva batia contra o vidro da janela como dedos impacientes. Isabela fechou a porta atrás de si e olhou para o armário alto, onde uma caixa de sapatos parecia esperar por ela.
Ela subiu na cadeira, esticou o braço e puxou a caixa com cuidado. O coração batia contra as costelas. Dentro, papéis dobrados e um envelope fino. Ela já sabia que não deveria abrir, mas o silêncio do apartamento a empurrava.
A caixa que não deveria existir
Os recibos de depósito apareceram primeiro, datas antigas, valores pequenos e constantes. Isabela correu o dedo sobre os números. Cada um carregava um nome que ela não reconhecia. O último recibo trazia uma data de três anos atrás.
Embaixo dos papéis, a foto. Um menino de colo, olhos escuros, sorriso torto. Isabela alisou a imagem com o polegar. Algo nela era familiar. A chuva escorria pelo vidro, distorcendo a luz do fim de tarde.
O rosto que ela já tinha visto
Isabela virou a foto. Nenhuma data. Nenhum nome. Só a imagem e o cheiro de poeira. Ela guardou-a na bolsa devagar, como quem esconde uma ferida que ainda não sangra. O pulso latejava.
Fernando chegaria em uma hora. Ela não podia ficar ali. O silêncio do escritório pesava como uma promessa que ela ainda não estava pronta para ouvir.
Quem é esse menino na foto
Isabela parou na porta, a mão no trinco. Voltou um passo, olhou para a cadeira vazia e sussurrou para o ar parado:
Quem é esse menino na foto?
A frase ficou suspensa entre a chuva e o vidro. Ela fechou a porta sem fazer barulho.
Na véspera do casamento, ela pediu para falar com a maquiadora a sós. Aline atendeu ao celular com a voz baixa. Isabela segurava a foto dentro da bolsa, o polegar ainda marcando o lugar onde o menino sorria.
