Marcos parou na porta da cozinha do restaurante Ferraz. A faca de chef descansava sobre a bancada de mármore, limpa e afiada. Augusto observava tudo em silêncio, enquanto César já mostrava o queixo erguido. O que Marcos ainda não sabia era que aquele primeiro dia ia revelar quem realmente queria ele longe dali.
A entrada na cozinha
Ele vestiu o avental que trouxera de casa. O tecido estava gasto nas mangas, diferente dos brancos impecáveis que os outros cozinheiros usavam. Augusto apontou para uma bancada lateral.
— Ingredientes simples hoje. Mostre o que sabe com o que tem.
Marcos assentiu. Não era a primeira vez que cozinhava com pouco. César riu baixo, mas ninguém comentou. A equipe se moveu rápido, olhos curiosos sobre o novo rosto.
O preparo do prato
Marcos recebeu arroz, feijão preto, cebola, alho e um pedaço pequeno de carne. Nada sofisticado. Ele começou a picar sem pressa, sentindo o cheiro que subia da panela. Cada gesto era o mesmo de quando preparava marmitas na rua.
César passou por perto e parou.
— Isso não é gastronomia. É comida de rua.
Marcos não respondeu. Continuou mexendo. A fome que sentia em casa sempre ensinava a não desperdiçar nada. O cheiro ficou bom rápido, e alguns ajudantes pararam para olhar.
A prova e a decisão
Augusto provou o prato em silêncio. Mastigou devagar, depois colocou o garfo de lado.
Diploma ensina técnica, César. Fome ensina a não desperdiçar talento.
César ficou vermelho. A frase saiu baixa, mas todos ouviram. Augusto limpou a boca com o guardanapo.
— Volte amanhã, Marcos. Mesmo horário.
Marcos guardou o avental. Sentia o coração bater forte, mas não sorriu. Só assentiu e saiu pela porta dos fundos. A noite já caía sobre a Mooca quando ele pegou o ônibus de volta.
Em casa, Carla ainda não sabia do convite. O dinheiro das marmitas do dia anterior estava quase todo gasto com o aluguel atrasado. Marcos deixou o resto sobre a mesa e foi lavar as mãos. Enquanto a água corria, ele pensou na expressão de César. Aquela raiva não ia sumir fácil.
César ficou na cozinha depois que todos saíram. Olhou os ingredientes que Marcos tinha usado e reparou que faltava um tempero na prateleira. Passou a mão sobre a bancada vazia. Amanhã ele ia garantir que nada saísse como planejado.
