Na cozinha do restaurante Ferraz, uma panela soltava vapor grosso enquanto o saleiro tombava de lado na bancada. Marcos arrumava os ingredientes com cuidado, decidido a repetir o sucesso do dia anterior. Augusto já tinha avisado que clientes importantes passariam pela noite. O que ele ainda não sabia era que alguém pretendia estragar tudo antes mesmo de o serviço começar.
A panela que não saía como antes
Marcos chegou cedo, como sempre. Lavou as mãos, verificou a lista de temperos e começou a separar o que ia usar. A receita que tinha dado certo precisava de ajuste fino, mas nada que ele não controlasse. César passou pela porta dos fundos, acenou de longe e desapareceu na sala de reuniões. Marcos sentiu o olhar demorado, mas guardou para si.
Ele provou o molho base e achou que estava bom. Colocou a panela no fogo baixo e foi buscar os legumes na câmara fria. Quando voltou, o saleiro estava fora do lugar. Não grande coisa. Só um detalhe. Alguém passou por aqui enquanto eu estava fora, pensou. Ignorou e seguiu em frente.
O gosto que não batia
Dez minutos depois, Marcos experimentou de novo. O molho estava amargo demais. Ele cheirou, provou com a ponta da colher e parou. Não era sal. Era algo que ele não tinha colocado. O tom amargo subia na garganta. Ele largou a colher e olhou em volta. A cozinha estava vazia.
Augusto apareceu na porta, sorrindo para os dois clientes que trazia atrás. Queria mostrar o novo cozinheiro em ação. Marcos limpou as mãos na toalha e respirou fundo. Quem mexeu nisso queria me ver humilhado, não queria estragar só a comida.
Ele despejou o molho fora, pegou outra panela e começou de novo, usando só o que tinha certeza que estava limpo. Os clientes não precisavam saber do problema. Augusto ficou quieto, observando. César surgiu do corredor, braços cruzados, sem dizer nada.
A verificação que Augusto mandou fazer
Depois do serviço, quando os clientes foram embora elogiando o prato improvisado, Augusto chamou o segurança. Queria ver as câmeras da cozinha. Marcos limpava a bancada, ainda com o gosto ruim na boca. Não falou nada. Só esperava que o chefe resolvesse logo.
O segurança voltou com o tablet. As imagens mostravam César entrando na cozinha minutos antes de Marcos chegar, mexendo nos potes de tempero e depois saindo rápido. Augusto assistiu duas vezes. Não disse palavra alta. Só fechou a tela e olhou para Marcos.
— Volta amanhã. E traga a receita que você fez hoje de novo — pediu, baixo.
Marcos assentiu. Na saída, parou um segundo na porta dos fundos. Pensou na conta que estava por vencer em casa e no envelope que Carla tinha mencionado de leve naquela manhã. Decidiu que ia aceitar o evento grande que Augusto oferecera. Precisava do dinheiro. Não sabia ainda que César teria acesso total à preparação daquele evento.
