Regina desceu os degraus da garagem carregando uma sacola plástica. Eram quase cinco da manhã e o ar estava úmido. Ela parou perto da lixeira metálica e começou a rasgar papéis com pressa.
A queima na garagem
Recibos voavam ao redor dos pés dela. Alguns números estavam riscados, outros dobrados várias vezes. Regina acendeu um isqueiro e aproximou a chama de um maço maior. O cheiro de papel queimado subiu devagar.
Dolores observava de longe, encostada na parede atrás de uma coluna. Rafael ficou ao lado dela, em silêncio. Os dois tinham seguido a síndica depois de ler o recado no grupo do prédio.
O que o livro mostrava
No porão da zeladoria, Dolores abriu o caderno de ocorrências. As páginas estavam marcadas com caneta azul. Ela apontou datas de visitas ao banco e comparou com os saques do fundo de reserva. Tudo batia.
Dois anos de retiradas sem nota fiscal. Pagamentos a uma empresa fantasma que nunca fez serviço nenhum no prédio. Rafael leu em voz baixa os nomes e balançou a cabeça.
A joia era só fumaça; o incêndio estava nas contas do prédio.
Dolores fechou o livro devagar. Ela já desconfiava que o problema era maior, mas ver os números escritos mudou tudo.
A cópia que restou
Regina jogou o último maço na lata e pisou em cima para apagar o fogo. Quando virou para sair, viu Dolores parada na entrada da garagem. A síndica parou no meio do caminho.
— Você não tem nada — disse Regina, a voz rouca.
Dolores ergueu o celular. Na tela, apareciam fotos dos recibos que Regina tentara queimar. Atrás dela, Rafael segurava uma pasta com cópias impressas do livro de ocorrências. Regina olhou para os dois e deu um passo para trás. O rosto dela mudou de cor.
