O elevador subia devagar entre os andares do Eldorado. Juliana apertava o colar contra o peito, os dedos tremendo. Dolores observava o reflexo no espelho e esperava. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela conversa nem tinha começado.
O espelho do elevador
Juliana apertou o botão de parar. O elevador parou entre o quinto e o sexto andar. O ar ficou quente de repente. Dolores ficou quieta, olhando a própria imagem ao lado da jovem.
— Me devolve isso — pediu Juliana, a voz baixa. — Eu preciso dele de volta.
Dolores não estendeu a mão. Só esperou. O colar brilhava sob a luz fraca do teto.
A verdade que saiu
Juliana respirou fundo duas vezes. Olhou para o chão. Depois para o espelho, como se não suportasse encarar a zeladora de frente.
— Eu que peguei. Foi eu quem tirou o colar da gaveta da minha mãe — disse, quase sem som. — Deixei que te acusassem porque não aguentava a ideia de ela descobrir.
Dolores sentiu o peito apertar. O livro de ocorrências que carregava na bolsa pareceu mais pesado.
Eu roubei a joia, mas foi minha mãe quem roubou sua vida.
A frase ficou no ar. Juliana encostou a testa no espelho frio. Lágrimas escorriam sem barulho.
O que mais estava escondido
Dolores respirou devagar. Não sentiu raiva logo de cara. Sentiu um cansaço velho, daqueles que vinham de anos ouvindo portas baterem.
— E agora? — perguntou, simples.
Juliana limpou o rosto com a manga da blusa. Falou baixo, como quem entrega um segredo guardado há tempo demais.
— Tem papéis no escritório dela. Recibos que ela nunca mostrou pra ninguém. Eu vi uma vez, quando fui pedir dinheiro. Se alguém olhar direito, vai entender tudo.
O elevador voltou a subir. Dolores guardou o colar na própria bolsa sem dizer mais nada. Juliana ficou olhando o chão até a porta abrir no oitavo andar. Quando saiu, o corredor estava vazio. Dolores ficou parada um segundo a mais, pensando nos recibos e na garagem que ficava logo abaixo.
