Dona Lúcia ainda não sabia que o dia que ela tentava deixar para trás guardava mais uma decepção antes de acabar. A marmita que Henrique recusara continuava fechada sobre a mesa da cozinha pequena. Ela tentava não olhar para o prato, mas o cheiro de comida fria permanecia no ar. O silêncio do apartamento parecia mais pesado do que o normal.
A marmita que ela não tocou
Lúcia acordou cedo e guardou a marmita na geladeira sem abrir. O encontro do dia anterior ainda doía. Ela não queria pensar na forma como o filho a olhara na frente dos amigos. Por volta das dez, o interfone tocou. Era Rafael.
A conversa com Rafael
Rafael entrou trazendo uma sacola do restaurante. Colocou a comida na mesa e ficou em pé, sem tirar o casaco. “Você não pode ficar quieta para sempre”, disse ele. Lúcia respondeu que preferia não causar mais problemas. Rafael balançou a cabeça. “Silêncio não é perdão, Lúcia. É só adiamento.” Ela serviu café e não respondeu.
A chegada de Henrique
Henrique apareceu sem avisar meia hora depois. Entrou na cozinha e viu a marmita ainda fechada. Falou direto: queria que a mãe parasse de procurar Camila. Disse que a aparição dela no jantar estragara uma reunião importante. Lúcia tentou explicar que só queria levar comida. Henrique ergueu a voz. “Eu passei a vida abrindo portas para você entrar, e agora você quer fechar todas na minha cara.” Ele saiu batendo a porta. Um pedaço de papel caiu do bolso dele sem que percebesse.
Lúcia pegou o comprovante do chão. Era um recibo de pagamento de aluguel de um apartamento que ela nunca tinha ouvido falar. O nome do edifício não significava nada para ela. Ela guardou o papel na gaveta sem ligar para o filho. Naquela noite, quando a cozinha ficou vazia de novo, o prato continuou fechado na geladeira.
