Henrique mantinha os olhos fixos na taça de vinho intacta à sua frente. A conversa ao redor da mesa seguia sobre contratos e números, mas ele mal ouvia. Otávio observava em silêncio, e Camila sorria para os investidores como se tudo estivesse normal. O que Henrique ainda não sabia era que uma única frase ia mudar o rumo daquela noite.
O jantar que ninguém queria
Lúcia sentou-se na ponta da mesa, quieta, com as mãos no colo. Ela queria levantar e ir embora, mas Otávio havia pedido para ficar. Henrique tentava desviar o olhar dela, falando alto sobre como construiu tudo sozinho. A negação da mãe parecia a única saída possível para ele.
— Essa senhora não faz parte do meu círculo agora — disse Henrique baixinho para Camila, inclinando-se para o lado. — É só alguém de antes.
Camila assentiu, mas seu sorriso ficou mais curto. Lúcia olhou para o prato que não tocou. O restaurante badalado dos Jardins estava cheio, e ela se sentia deslocada entre os ternos e os vestidos.
A revelação na mesa
Otávio limpou a garganta e olhou direto para Henrique. — Você pode negar sua mãe, mas não pode inventar outra infância. Eu vi Dona Lúcia trabalhar noites inteiras para pagar seus estudos. Vi ela vender o que tinha para o seu primeiro negócio não afundar.
O silêncio caiu sobre a mesa. Henrique apertou o guardanapo. Camila parou com o garfo a meio caminho da boca. Lúcia baixou a cabeça, sem conseguir protestar. Ela já sabia que o filho ia tentar apagar tudo.
— Otávio, isso não é hora — murmurou Henrique, mas a voz saiu fraca. Os investidores trocaram olhares. Ninguém disse nada por alguns segundos.
Você pode negar sua mãe, mas não pode inventar outra infância.
Camila empurrou a cadeira para trás. — Eu preciso ir — disse ela, pegando a bolsa. Henrique tentou segurar seu braço, mas ela se soltou sem olhar para trás. A taça de vinho continuou cheia no lugar dele.
O que restou depois
Henrique ficou sentado, vendo Camila atravessar o salão. Otávio não acrescentou mais nada, mas seu olhar dizia que a história não terminava ali. Lúcia se levantou devagar e saiu pela porta lateral, sem se despedir. Henrique sentiu o peso da mentira que ele mesmo havia plantado. Na cozinha de Dona Lúcia, a marmita que ele recusara ficaria fechada sobre a mesa por toda a noite seguinte, enquanto Rafael aparecia com comida e Henrique planejava uma visita para pedir silêncio.
