Marta mexia a panela devagar, o cheiro de feijão subindo no ar abafado da cozinha pequena. Renato já estava de roupa de academia, olhando o relógio. Ela queria que ele comesse alguma coisa antes de sair, mas ele nem olhou para o prato. O que ela ainda não sabia era que as palavras que faltavam dizer naquele dia iam mudar tudo.
A colher parada na panela
— Come um pouco — pediu Marta, a voz baixa. — Tá quente ainda.
Renato bufou, ajustando a camisa no espelho do armário. — Eu tô bonito demais pra ficar preso com uma mulher que nem se cuida. Você olha pra mim e acha que eu devo ficar aqui?
Ela sentiu o calor subir no rosto, mas não respondeu. A colher parou no ar por um segundo. Renato pegou a chave do carro e saiu sem fechar a porta direito. O prato ficou ali, esfriando na mesa.
A caminhada até a academia
Lúcia bateu na porta duas horas depois, ofegante. — Vem comigo. Eu vi ele entrar lá com uma moça. Não é besteira.
Marta calçou o chinelo rápido e foi. A academia ficava só três quadras. Do lado de fora, pelo vidro, ela viu Renato de braços com Bianca, os dois rindo como se o resto do mundo não existisse. Marta parou no meio da calçada.
— É ela — murmurou Lúcia.
Marta respirou fundo e entrou. A frase saiu antes dela pensar:
Você me chamou de baranga sem lembrar quem pagou para você virar esse homem.
Renato congelou. Bianca olhou de um para o outro, sem entender.
A sacola na volta para casa
Não deu pra discutir ali. Marta saiu, foi até a farmácia da esquina e gastou o que tinha guardado para as contas do mês. Comprou um shampoo, um hidratante e um batom barato. A sacola plástica balançava na mão quando ela abriu a porta de casa.
Renato dormia no sofá, a respiração pesada. O celular dele vibrou em cima da mesinha. A mensagem apareceu na tela: “Amanhã cedo no mesmo lugar? Não aguento esperar.”
Marta ficou parada, olhando a sacola ao lado da porta. O dia não tinha acabado, mas ela já sabia que não ia mais ser o mesmo.
