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A Zeladora — Capítulo 8: Uma assembleia contra o medo

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Dolores viu a convocação no mural e sentiu o vento na trança. O que ela não esperava era que o preconceito dos vizinhos viesse antes mesmo da assembleia começar.

Ao entardecer na cobertura, o vento agitava a trança de Dolores enquanto ela fitava o papel pregado no mural. A convocação não trazia data nem detalhes, só o nome do salão de festas. Ela queria falar diante de todos, mas ainda não sabia que o maior obstáculo não seria Regina.

A convocação no mural

Dolores ajustou o lenço na cabeça e releu o bilhete duas vezes. Rafael tinha dito que o documento seria formal, com assinatura de três moradores. Ali no mural parecia só mais um aviso de festa de fim de ano. O vento bateu de novo e o papel se soltou pela borda.

Ela desceu pela escada de serviço, como sempre. No caminho encontrou o porteiro Ademar, que baixou a voz.

— Regina já está reunindo gente no grupo. Diz que você quer destruir o condomínio.

Dolores não respondeu. Guardou o recado no bolso e continuou descendo.

O que Gilberto espalhou

No grupo do prédio, a mensagem chegou rápido. Gilberto escreveu que Rafael só defendia a zeladora porque tinha “interesse pessoal”. Duas mensagens depois ele completou: “ninguém ajuda de graça uma funcionária”. Dolores leu o texto no celular de Rafael quando ele mostrou a tela.

— Eles vão usar isso contra a gente — disse ela.

Rafael guardou o telefone. Ele não negou nada. Apenas pediu que ela esperasse até a assembleia para responder. Dolores sentiu o olhar dele demorar um segundo a mais. Ela já sabia que aquele olhar ia custar caro.

Regina na cobertura

Regina recebeu três vizinhos na sala de estar. Falou baixo, como quem explica um problema técnico. Disse que Dolores estava amargurada depois da demissão e que Rafael era só mais um advogado que gostava de causa perdida. Quando um morador perguntou sobre o livro de ocorrências, Regina mudou de assunto para o fundo de reserva.

Já na porta, ela parou e acrescentou:

O que vocês chamam de escândalo, eu chamo de respeito.

A frase saiu da boca de Rafael, que tinha acabado de chegar. Regina virou o rosto e não disse mais nada.

A data confirmada

Às oito da noite o síndico interino mandou a mensagem oficial. Assembleia extraordinária marcada para sexta, nove da manhã, salão de festas. O livro de ocorrências poderia ser apresentado. Dolores estava autorizada a falar por quinze minutos.

Rafael guardou o celular e olhou para ela.

— Agora é oficial. Não dá mais pra voltar.

Dolores assentiu. O vento da cobertura tinha parado, mas ela ainda sentia o cheiro de papel molhado no ar. Amanhã o prédio inteiro ia ouvir o que ela guardou durante vinte anos.