Marcos abriu a porta da cozinha e viu o envelope amassado preso embaixo. O primeiro pagamento do trabalho com Augusto ainda nem tinha entrado na conta, mas ele já pensava em usar parte para quitar as contas atrasadas. O que ele ainda não sabia era que o envelope traria uma conta bem maior que qualquer dívida que imaginava.
O envelope sob a porta
Carla serviu o café sem falar muito. Os meninos já tinham saído para a escola e a casa parecia mais vazia que o normal. Marcos pegou o envelope, leu o nome do banco e franziu a testa. O valor escrito ali era três vezes maior do que as parcelas que ela mencionava de vez em quando.
— Isso não é o que eu combinei — disse ele, a voz baixa.
Carla olhou para o fogão. O feijão ainda cozinhava devagar.
A visita do cobrador
O homem bateu na porta meia hora depois. Falava baixo, como quem já fazia aquilo muitas vezes. Marcos escutou o número final e precisou sentar. O empréstimo que Carla tinha feito para evitar o despejo era clandestino e os juros cresciam toda semana. Ele não conseguiu olhar para a esposa enquanto o cobrador explicava as consequências de não pagar.
Quando o homem foi embora, o prato de comida na mesa já estava frio.
— Eu não escondi porque não confio em você — Carla falou finalmente. — Escondi porque achei que você já carregava peso demais.
O acordo com Augusto
Marcos ligou para o restaurante ainda no mesmo dia. Aceitou cozinhar o grande evento que Augusto queria oferecer para os investidores. O dinheiro adiantado seria suficiente para cobrir duas parcelas e ganhar tempo. Ele não contou para Carla que César teria acesso à lista de preparo e aos fornecedores. Só disse que ia precisar de alguns dias fora de casa para planejar tudo.
Antes de sair, olhou mais uma vez para o envelope em cima da geladeira. A casa estava quieta de novo, mas agora o silêncio pesava diferente.
