Marcelo estava deitado no quarto abafado, a caixa de coxinhas apoiada sobre a barriga. Uma coxinha esmagada marcava o lençol. Lívia parou na porta e ficou olhando. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
O quarto abafado
O ventilador girava devagar, empurrando ar quente. Embalagens de salgadinhos estavam jogadas no chão. Marcelo mordeu outra coxinha sem olhar para ela. Lívia cruzou os braços.
— Você não vai trabalhar hoje? — perguntou ela.
— Tô de folga — respondeu ele, a voz baixa.
Ela viu a mancha de óleo no lençol e mordeu o lábio. Não disse nada ainda. Só observou o marido comer como se aquilo fosse normal.
O dinheiro que sumiu
Horas depois, Lívia conferiu a conta do banco no celular. O valor do aluguel não estava lá. Ela ligou para o banco, repetiu o nome do marido duas vezes. Nenhuma transferência aparecia. Quando Marcelo entrou em casa carregando duas pizzas e sacolas de plástico, ela já estava de pé na sala.
— Onde está o dinheiro do aluguel? — perguntou, a voz firme.
Ele parou no meio da sala, as sacolas balançando. Não respondeu de imediato.
A chave vermelha
A discussão subiu rápido. Lívia apontou para as caixas de comida. Marcelo colocou tudo na mesa e tentou explicar que ia devolver o valor depois. Ela falou que ele vivia mentindo. Ele respondeu que ela falava como se ele fosse lixo. A frase saiu mais alta do que pretendia.
Eu errei, mas não sou o lixo que você fala como se eu fosse.
No meio do movimento, uma chave pequena com etiqueta vermelha caiu do bolso dele. Marcelo tentou empurrá-la com o pé para debaixo do sofá. Lívia viu o gesto. Ela já desconfiava de mais uma mentira. Ficou quieta, olhando para o pé do marido. Depois disso, guardou o momento em silêncio, decidida a descobrir onde aquela chave abria.
