Marta entrou na sala de costura de Lúcia sentindo o cheiro de tecido molhado. A chuva batia forte na janela pequena. Ao lado da tesoura, uma fotografia amassada esperava. Lúcia não falava desde que chamou a amiga.
A fotografia na gaveta
Lúcia empurrou o papel para frente. Na imagem via-se Renato debruçado sobre a mesa da sala, tirando fotos de papéis com o celular. Marta olhou duas vezes. Ele nunca mexia naqueles documentos quando ela estava em casa.
— Eu tirei isso meses atrás — disse Lúcia baixo. — Achei que fosse besteira, mas guardei.
Marta pegou a foto. Os papéis pareciam extratos e contratos. Ela pensou no que Renato andava dizendo sobre vender o carro. Se ele estava tirando fotos, era porque queria guardar prova de alguma coisa.
O que Renato ainda procurava
Do outro lado da cidade, Renato abriu a gaveta do armário e tirou uma pasta fina. Colocou dentro da mochila sem ligar a luz. Sabia que restavam poucos papéis capazes de mostrar as transferências antigas. Queria tirar tudo antes que Marta resolvesse olhar.
Bianca mandou mensagem perguntando se ele já tinha falado do divórcio. Renato respondeu com uma frase curta e desligou o celular. Ela estava começando a perguntar demais sobre bens que ele dizia ter.
Caio e os registros antigos
Caio sentou com Marta na farmácia depois do expediente. Trouxe um caderno com anotações de compras antigas que ela mesma tinha pedido para ele procurar. Quando as mãos deles se tocaram por cima da mesa, Marta sentiu um aperto no peito. Ainda era casada. Ainda morava na mesma casa.
— Você não precisa resolver tudo hoje — falou Caio.
Ela assentiu, mas já sentia culpa por estar ali. Não era só ajuda que ela queria.
A transferência que bateu
De volta em casa, Marta abriu o arquivo que Caio tinha mandado por e-mail. Uma transferência de três anos atrás apareceu na tela. O valor era exatamente o mesmo que ela tinha recebido da herança da mãe. Na época Renato disse que usaria só para quitar dívidas do carro. Agora via que o dinheiro tinha ido para uma conta diferente, com nome que ela nunca ouviu.
Talvez a traição não tenha começado na cama; talvez tenha começado na minha carteira.
Ela fechou o notebook e ficou olhando para a parede.
Renato ainda não tinha chegado. Marta guardou o papel impresso na bolsa. Sabia que precisava verificar mais uma coisa antes de falar com alguém.
