Marta sentou à mesa da cozinha com os documentos abertos em leque. A caneta preta estava partida ao meio, a tinta vazando sobre uma folha. Ela comparava cada assinatura com a própria letra e percebia que várias não eram dela. Só depois, no fim daquela tarde, é que tudo faria sentido.
A mesa da cozinha
Ela passou o dedo sobre o contrato de venda de um terreno que nunca existiu. O nome dela estava lá, com a data de seis meses atrás. Renato entrou na cozinha, viu os papéis e parou no batente da porta.
“Isso tudo foi pra proteger a gente”, ele disse. “Se a gente colocasse tudo no meu nome, o banco não ia poder tomar nada.”
Marta não levantou os olhos. “Eu nunca assinei isso.”
O silêncio de Lúcia
Lúcia apareceu na porta dos fundos sem bater. Ficou parada, olhando os papéis. Marta perguntou direto: “Você viu ele mexendo nisso?”
A vizinha apertou as mãos na frente do corpo. “Vi. Meses atrás. Ele saiu com uma pasta e eu fotografei pra te mostrar. Depois tive medo de estragar tudo.”
Marta sentiu o ar faltar. “Você guardou isso pra si.”
“Não queria que vocês brigassem por minha causa.”
“Não foi por minha causa que você ficou quieta.”
A ligação de Bianca
O celular tocou. Era Bianca. A voz dela saía cortada. “Ele pegou meu dinheiro também. Tem um comprovante aqui que ele transferiu tudo pra uma conta que não é minha. Eu achei que a gente ia montar o estúdio junto.”
Marta anotou o nome da conta. Era a mesma que aparecia em vários dos documentos que Renato tinha levado.
Bianca continuou: “Tem uma reserva de hotel em Campos do Jordão pra depois de amanhã. Só o nome dele.”
A assinatura que não era dela
Marta virou a última página. Ali estava a passagem aérea, só ida, só o nome dele. Ao lado, uma folha com a assinatura dela em um procuração que dava a Renato poder total sobre tudo que ela ainda possuía. Ela passou anos pedindo desculpa por ocupar espaço na vida de um homem que estava apagando seu nome dos seus próprios bens.
Renato tentou falar de novo. Marta ergueu a mão. O silêncio entre as duas amigas e a voz de Bianca ao telefone bastavam. A caneta partida continuava no meio da mesa, a tinta já seca.
