Renato acordou antes do sol nascer e moveu a mala preta até a porta da sala sem fazer barulho. A casa ainda cheirava a comida do dia anterior. Ele verificou os documentos pela terceira vez, mas parou quando viu Marta sentada no sofá escuro. Ela não parecia surpresa.
A mala perto da porta
Marta observava o marido em silêncio. A aliança brilhava fraca na luz da rua que entrava pela janela. Renato soltou o ar devagar, como quem calcula quanto tempo ainda tem.
— Eu ia te deixar um bilhete — ele disse baixo.
Ela balançou a cabeça. Não era mais sobre impedir que ele saísse. Era sobre ele ter que ouvir.
O que ele levou embora
Renato começou a explicar que o dinheiro da herança da mãe dela tinha sido usado para abrir contas novas. Falou que confiança demais tinha facilitado as coisas. Marta ficou quieta até ele terminar.
— Eu não perdi você para outra mulher, Renato — ela respondeu. — Eu perdi você no dia em que descobriu que podia me roubar e ainda dormir do meu lado.
Ela não levantou a voz. Só deixou a frase no ar.
Renato tentou dizer que ainda dava tempo de separar o que era dele e dela. Marta não respondeu. A mala continuava ao lado da porta, fechada.
A visita que ele não esperava
A campainha tocou. Bianca entrou sem esperar convite, falando rápido sobre a reserva de hotel e a passagem que estava só no nome dele. Quando viu Marta, parou no meio da sala.
Bianca exigiu a parte que Renato havia prometido. Ele olhou para os dois lados, sem saber qual mentira usar primeiro. Marta só observou.
— Ele ia embora sozinho — disse Marta por fim. — Você também não estava no plano.
Bianca ficou vermelha, depois pálida. Saiu batendo a porta sem esperar resposta.
O que sobrou na mesa
Renato pegou a chave do carro. Marta tirou a aliança do dedo devagar e colocou em cima da mala preta. O metal fez um som pequeno contra o tecido.
— Os documentos já estão com o advogado — ela falou. — Você pode ir.
Ele hesitou na porta, mas não disse nada. A mala saiu primeiro. Marta ficou na sala vazia, olhando o espaço onde o móvel de entrada costumava ficar. Nos meses que viriam, a casa mudaria de uso, mas a sensação de peso na sala demoraria mais para desaparecer.
