Bel chegou cedo, como sempre. A vitrine já tinha fila do lado de fora. Ela abriu a porta e sentiu o cheiro de pão saindo do forno. O que ela ainda não sabia era que, no fim daquele dia, uma visita antiga voltaria sem aviso.
Semanas depois
A cafeteria estava cheia de novo. Mesas ocupadas, gente conversando baixo, xícaras batendo no pires. Bel servia mesa por mesa, sem pressa. Tião lavava louça no fundo e espiava pelo vão da porta. Ele via Bel sorrir para os clientes e sentia um aperto no peito. Sabia que o amor dele não mudava as escolhas dela.
A moeda guardada
Bel pegou uma moeda antiga da gaveta. Colocou dentro de um vidro pequeno perto do caixa. A moeda brilhou um segundo sob a luz. Ela guardava aquilo como prova de que o lugar continuava de pé. Os clientes não reparavam, mas para ela significava que a dívida com a mãe estava paga de algum jeito.
Caio entrou perto do meio-dia. Vinha de terno simples, sem pasta grossa. Pediu um café e ficou no balcão. Bel serviu sem olhar muito. Ele disse que tinha perdido dois clientes depois de testemunhar contra Fifi. Estava recomeçando do zero.
Fifi volta sem sacolas
À tarde, Fifi apareceu. Sem bolsas, sem salto alto. Parou na porta e esperou Bel terminar de atender uma mesa. Quando se aproximou, a voz saiu baixa. “Vim pagar o que fiquei devendo mês passado.”
O meu trabalho tem valor, e respeito não entra em promoção.
Bel ouviu sem interromper. Fifi pagou em notas, sem pedir desconto. Saiu devagar, sem olhar para os outros clientes. Pela primeira vez, não discutiu.
Um café depois do expediente
Tião terminou de limpar as mesas e se despediu. Antes de sair, disse que entendia. Bel não precisava responder. Caio ainda estava ali, encostado no balcão. Ela pegou duas xícaras limpas. “Depois que fechar, a gente pode tomar um café.” Ele assentiu. Nada estava resolvido, mas o dia terminou com a cafeteria ainda cheia e a porta entreaberta.
