A luz cinzenta da madrugada entrava pela janela estreita e batia na gaveta entreaberta do velho armário. Um cheiro de arroz velho e sabonete neutro pairava no ar do quarto apertado. Sakura sentou na beirada da cama, os dedos parados sobre a madeira rachada.
Do lado de fora, o Mercado Sol Nascente já acordava com o barulho distante de caixas sendo arrastadas. Dentro do quarto, o silêncio era mais alto. Ela puxou a gaveta com cuidado, como quem mexe em ferida antiga.
A gaveta que guarda o que não se mostra
O diploma amarelado surgiu debaixo de cadernos gastos e recibos de ônibus. Sakura o segurou contra a luz fraca, o papel tremendo levemente entre os dedos. Ele ainda existe, pensou, embora ninguém no festival tivesse querido ver.
Hiroshi parou na porta, os olhos fixos no chão. Não entrou. Apenas observou a filha do filho com o olhar de quem já carregou segredos demais.
— Eles não precisam saber de tudo — murmurou ele, a voz rouca de quem acorda cedo há setenta anos.
Sakura dobrou o papel com precisão. O som do vinco pareceu ecoar pela peça pequena.
O ajudante que arruma o que não é dele
Mateus surgiu no corredor fingindo verificar o estoque de arroz. Os passos eram leves demais para o horário. Ele parou atrás da porta entreaberta, ouvindo.
Sakura ligou o notebook velho. Os vídeos das avaliações da escola de gastronomia começaram a rodar. Em uma das páginas, o carimbo de entrega aparecia com data anterior à que ela havia enviado. Alguém chegou antes.
— Você não precisa provar nada para eles — repetiu Hiroshi do corredor.
Ela não respondeu. Os olhos corriam pelas linhas de avaliação, cada nota alta que nunca servira de nada no mercado.
Meu diploma não vale menos por ter sido pago com ônibus lotado e almoço contado.
Mateus recuou um passo, o rosto pálido contra a parede. O celular vibrou no bolso dele, mas ele não atendeu.
O papel que carrega o nome de outro
Entre os documentos antigos, uma cópia extra do currículo apareceu dobrada. No canto superior, um carimbo azul quase apagado: “Recebido — Restaurante Sakamoto”. Sakura olhou o carimbo por longo tempo. A luz do dia já batia forte na janela.
Hiroshi se afastou sem fazer barulho. O cheiro de café subia do quiosque lá embaixo.
Sakura guardou tudo de volta, menos aquele papel marcado. Deixou-o sobre a mesa, aberto.
