O escritório da organização do festival exalava um frio calculado. Paredes de vidro refletiam o skyline de São Paulo, enquanto a mesa de mármore branco sustentava apenas uma pasta fechada, intocada, no centro exato do tampo. O ar-condicionado zumbia baixo, como um segredo que ninguém ousava nomear.
Sakura parou à porta. O cheiro de papel novo misturava-se ao perfume caro de quem já decidira tudo antes dela chegar. Lucas ajustou a gravata, olhos fixos na pasta. Ricardo Sakamoto sorriu de leve, um sorriso que não chegava aos olhos.
A pasta que ninguém tocou
O diretor folheou os documentos sem pressa. O diploma de gastronomia estava ali, carimbado e assinado. Sakura sentiu o coração bater contra as costelas.
— O problema não é a formação — disse o homem, voz neutra como o mármore. — É a ausência de um restaurante formal. Experiência comprovada em estabelecimento próprio.
Sakura apertou os dedos no encosto da cadeira. O carimbo do restaurante de Ricardo ainda marcava uma das páginas que Mateus havia tocado.
O silêncio que Ricardo comprou
Ricardo inclinou-se ligeiramente para a frente. Seus dedos tamborilaram uma única vez sobre a mesa.
— Regras são regras — murmurou, sem olhar para ela. — O festival precisa de nomes que tragam público.
O silêncio pesado caiu como lâmina. Lucas franziu a testa, notando o modo como Ricardo evitava o olhar dele.
Vocês aceitaram minha formação e recusaram meu endereço.
A frase saiu seca, cortando o ar gelado. Ninguém respondeu.
O olhar que Lucas não desviou
Lucas recolheu a pasta devagar. Seus olhos encontraram os de Sakura por um segundo a mais do que devia.
— Vou verificar quem alterou os critérios depois da inscrição — disse ele, voz baixa. — Alguém ligou para a comissão ontem à noite.
Ricardo levantou-se primeiro. O cheiro de seu perfume ficou no ar, misturado ao de papel novo e mármore frio.
Sakura saiu sem olhar para trás. O diploma queimava dentro da bolsa como uma ferida.
