Marta acordou cedo naquele sábado, como de costume agora. O estúdio ocupava o que antes era a sala bagunçada. Uma colher de madeira velha estava dentro de um vaso decorativo perto da janela. Meses tinham passado desde a madrugada em que entregou a aliança.
O estúdio na Vila Mariana
Clientes chegavam aos poucos. Marta atendia na mesa nova, com luz melhor e agenda organizada no celular. Lúcia ajudava nos dias de movimento, separando toalhas e anotando horários. A vizinha recuperava a confiança devagar, sem precisar pedir desculpas todo dia.
Bianca mandou uma mensagem naquela manhã. Dizia que estava dando aulas em outra academia, mais longe, e que o dinheiro perdido ainda pesava. Marta respondeu com poucas palavras. Não havia rancor, só distância.
A visita que mudou o tom
Renato apareceu perto do meio-dia. Estava de tênis gasto e camisa simples. Falou baixo, quase sem olhar para ela. Disse que perdera o carro, que a academia fechara as portas e que precisava recomeçar. Pediu uma chance. Falou que agora via o quanto ela valia.
Marta ouviu em silêncio. Não sentiu raiva. Não sentiu prazer em vê-lo assim. Apenas notou que o aperto no peito que costumava vir já não aparecia. Quando ele parou de falar, ela respondeu que os papéis do divórcio já estavam assinados e que não havia mais nada para dividir.
Eu passei tanto tempo querendo que você se arrependesse que quase esqueci de aprender a viver sem precisar olhar para trás.
O jantar simples
Caio chegou quando Renato já tinha ido embora. Trouxe dois cafés numa bandeja de papel. Perguntou apenas se ela queria jantar em algum lugar perto, sem pressa. Marta guardou a aliança velha numa gaveta da bancada e fechou o estúdio. Do outro lado da rua, Renato observava a porta se trancar, mas não se aproximou.
Ela saiu sem olhar para trás. Pela primeira vez, o passo não era de fuga nem de revanche. Era só para frente.
