Amora empurrou a porta do depósito atrás da barraca e sentiu o cheiro de papel velho misturado com terra. A caixa que Dona Melancia mencionara estava no canto, quase escondida por sacos de farinha. Ela puxou o caixote devagar, sem fazer barulho.
O maço amarrado com fita
As cartas estavam presas por uma fita marrom desbotada. Amora sentou no chão de cimento e desfez o nó com cuidado. O primeiro envelope trazia o nome da mãe escrito à mão, junto com um endereço que ela nunca tinha visto.
Os papéis falavam de uma propriedade antiga, com medidas que batiam com o terreno onde hoje ficava o Bairro Nobre. Amora leu uma linha duas vezes. Sua mãe tinha direito sobre aquelas terras.
A conversa que não queria ter
Dona Melancia apareceu na porta do depósito e parou ao ver as cartas espalhadas. Você não devia mexer nisso agora, disse ela, voz baixa. Amora respondeu que já tinha lido o bastante para entender que a história era maior do que imaginava.
Dona Melancia tentou pegar o maço de volta, mas Amora segurou firme. A fita caiu no chão, rompida no meio. O bairro que te expulsou pode ter sido construído em cima do que era seu, leu Amora em voz alta. O silêncio que veio depois pareceu durar minutos.
A assinatura que faltava
Em uma das últimas páginas havia uma assinatura incompleta, só o sobrenome começando com a letra U. Amora dobrou a carta com atenção e guardou dentro da bolsa. Dona Melancia pediu que ela parasse, que aquilo podia chegar aos ouvidos de Uvaldo.
Amora saiu do depósito sem responder. Na saída da feira, ela pensou no cartório antigo da Vila Pomar. Se o registro ainda existia, Uvaldo não sabia. Ela caminhou mais rápido, sentindo o peso das cartas na bolsa.
Abacatão estava na praça quando Amora passou por ali mais tarde. Ele segurava o celular rachado e parecia procurar alguém. Amora desviou o olhar, mas notou que ele parou de andar ao vê-la.
