Amora caminhava pela viela estreita da Feira Velha com a semente do colar presa entre os dedos. O objeto pequeno e dourado ainda brilhava levemente, mesmo depois da humilhação no Bairro Nobre. Ela não conseguia parar de pensar no olhar que Uvaldo lançara para o colar. O que ele sabia que ela não sabia?
O retorno à barraca
Dona Melancia estava sentada atrás da barraca, organizando caixas de laranja como se nada tivesse mudado. Amora parou na entrada, o colar balançando no pescoço. O cheiro de manga madura misturava com o calor do fim de tarde. Nenhuma das duas falou por alguns minutos.
— Ele reconheceu a semente, dona Melancia. O homem do Bairro Nobre olhou direto pra ela.
Dona Melancia continuou empilhando as frutas. Seus ombros estavam tensos, mas ela não levantou a cabeça.
A semente do colar
Amora sentou no banco de madeira ao lado da mãe de criação. Tirou o colar devagar e colocou sobre a mesa. A semente girou uma vez sob a lâmpada amarela que pendia do teto da barraca. O brilho parecia mais forte ali, longe dos lustres do casamento interrompido.
— Minha mãe nunca usou joias caras. Isso aqui não é só lembrança.
Dona Melancia respirou fundo. As mãos pararam de mexer nas laranjas. Ela olhou para a semente como se visse algo perigoso dentro dela.
— Sua mãe não deixou joias, Amora. Deixou uma prova.
Amora ficou em silêncio. O coração batia mais rápido, mas ela não perguntou logo. Esperou. Dona Melancia mexeu no colarinho da blusa, como se procurasse tempo.
As cartas guardadas
— Tem um caixote lá no depósito. Nunca deixei você abrir. Sua mãe pediu que ficasse fechado até o momento certo.
Amora encostou a mão na mesa. A semente continuava parada sob a luz amarela. Ela pensava na humilhação no salão, no buquê no chão, no olhar de Uvaldo. Tudo parecia ligado agora, mas ainda sem forma.
— O que tem dentro?
Dona Melancia demorou para responder. Quando falou, a voz saiu baixa.
— Cartas antigas. Coisas que envolvem a família dele e as terras daqui. Eu guardei porque sabia que um dia isso ia te colocar em risco.
Amora pegou o colar de volta e passou a corrente pelo pescoço. A semente voltou a ficar contra sua pele. Ela não insistiu mais naquela hora. Levantou devagar e caminhou até a porta do depósito atrás da barraca. O cheiro de poeira saía por baixo da porta.
