Amora ajustava o buquê branco diante do altar improvisado no salão do Bairro Nobre. O lustre dourava o vestido simples que ela mesma costurara. Abacatão sorria nervoso ao seu lado. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
O buquê que caiu no chão
O salão estava lotado de gente do bairro rico. Frutas exóticas enfeitavam as mesas, mas Amora sentia o peso dos olhares. Ela apertou a mão de Abacatão e tentou ignorar o frio que subia pela espinha. O padre já começava as palavras quando a porta dos fundos bateu forte.
Cerejane entrou com passos firmes. O vestido vermelho dela contrastava com o branco de Amora. Todo mundo parou. Abacatão soltou a mão da noiva sem querer.
A mensagem que ninguém esperava
— Isso não pode continuar — disse Cerejane, voz clara. Ela ergueu o celular e mostrou uma tela. Uma mensagem de Abacatão para outra pessoa. Amora piscou, sem entender direito. O texto falava de encontros e segredos. Abacatão negou com a cabeça, mas a voz falhou.
Amora pediu calma. Queria terminar a cerimônia, mesmo que o chão parecesse sumir. Dona Melancia, lá atrás, tentou se aproximar, mas dois seguranças a barraram. Uvaldo, sentado na primeira fila, só observava em silêncio.
Amora de feira não casa no Bairro Nobre.
A frase saiu da boca de Cerejane como um tiro. O buquê escorregou da mão de Amora e caiu. As pétalas brancas se espalharam pelo piso encerado. Ninguém se mexeu para pegar.
O colar que chamou atenção
Amora virou as costas. Não chorou na frente de todo mundo. Caminhou até a saída segurando a barra do vestido. O colar de semente que sua mãe deixara balançava no pescoço. Quando passou perto de Uvaldo, o homem piscou rápido e o rosto dele mudou. Um susto verdadeiro, daqueles que não se finge.
Ele reconheceu a semente. Amora sentiu isso no olhar dele, mesmo sem entender por quê. Saiu do salão sem olhar para trás. O buquê ficou esmagado no chão, esquecido.
