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Podre Por Dentro — Capítulo 4: O homem que não traiu

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Abacatão mostra o celular rachado na praça. Amora quer acreditar, mas a mentira ainda pesa. Ela aceita investigar quem mandou a mensagem, sem voltar pra ele.

Abacatão parou na praça central quando viu Amora saindo do ponto de ônibus. A chuva fina brilhava nas pedras e pingava da aba do boné dele. Ele segurava o celular rachado na mão e respirava fundo antes de dar o primeiro passo. Só no final daquela conversa é que Amora entenderia até onde a mentira tinha chegado.

O celular rachado

Ele se aproximou devagar. Amora apertou a bolsa contra o corpo e parou debaixo do toldo da padaria. Abacatão estendeu o aparelho sem dizer oi primeiro.

— Olha o número. Não é meu. Nunca foi.

Ela pegou o celular. A tela estava cheia de linhas brancas, mas o registro da mensagem aparecia claro. O horário batia com o dia da humilhação no casamento. Amora leu duas vezes e sentiu o peito apertar.

— Como eu sei que você não trocou de chip?

— Porque eu tô te mostrando agora. Antes de qualquer coisa.

A conversa que ela temia

Amora queria acreditar. Queria voltar pra casa dele, pro cheiro de café que ele fazia de manhã. Mas a imagem de Cerejane segurando aquele papel na frente de todo mundo ainda estava viva. Ela devolveu o celular.

— Eu perdi você por uma mentira que nem sabia que existia — disse ele baixo, olhando a água escorrer da calçada.

Amora ficou quieta. A chuva aumentou um pouco. Dois meninos passaram correndo e respingaram água nas pernas dela. Ela pensou nas cartas que tinha lido no depósito, no nome da mãe ligado àquelas terras. Abacatão esperou.

— Eu não volto hoje. Mas vou descobrir quem mandou isso.

Ela concordou em investigar junto. Não por eles dois. Por ela mesma, antes de qualquer coisa.

O que ficou pendurado

Abacatão guardou o celular no bolso. Amora disse que ia seguir pro cartório antigo como planejava. Ele ofereceu carona até o meio do caminho. Ela aceitou. Dentro do carro, o silêncio era cheio de coisas que nenhum dos dois conseguia dizer ainda. Amora olhou pela janela e pensou que o bairro nobre parecia mais distante do que nunca. Abacatão parou na esquina indicada e esperou ela descer. Antes de fechar a porta, ela pediu o número do aparelho que ele tinha mostrado. Ele anotou num papel de pão e entregou. Amora guardou no bolso da calça. No mercado da Feira Velha, Limete já revirava papéis velhos atrás do balcão, procurando algo que ninguém mais queria ver.