Kelly terminou de contar as notas pela terceira vez, mas o total ainda não batia com o que ela havia registrado. O que ela ainda não sabia era que a diferença de caixa que faltava já tinha um dono antes mesmo de ela abrir a gaveta.
O fechamento que demorou
Valdir fechou a porta dos fundos e pediu para todos os operadores ficarem até o caixa ser conferido. A luz fluorescente piscava uma vez por segundo, como se estivesse contando os segundos junto com eles. Kelly guardou o caderno no bolso da calça e esperou.
Matheus ficou do lado dela, quieto, só olhando o gerente mexer nas notas com a mão enluvada. Dona Sônia tinha ligado duas vezes durante o dia, mas Kelly não pôde atender. Agora o celular estava no modo silencioso dentro da bolsa.
A diferença de caixa que apareceu
— Abre a gaveta, Kelly — disse Valdir sem olhar para ela. A gaveta estava mais leve do que deveria. Ele contou as notas devagar, parando em cada maço como se já soubesse o resultado. Faltavam duzentos e quarenta reais.
Kelly repetiu a contagem. O número não mudou. Ela explicou que tinha entregado tudo no cofre às cinco e meia, como sempre fazia. Valdir balançou a cabeça devagar.
Você pode contar cem vezes, Kelly. Vai continuar faltando.
Matheus ergueu a sobrancelha. Ele tinha ouvido Valdir mencionar o valor exato antes mesmo de terminar a conferência. A informação ficou presa na garganta dele por um segundo inteiro.
O que Matheus notou
Valdir guardou as notas em um envelope marcado com o nome dela e escreveu algo no bloco de ocorrências. Kelly pediu para ver os registros do sistema, mas ele disse que isso seria resolvido depois. O mercado já estava escuro, só a luz da saída de emergência acesa.
Ela guardou o crachá no bolso e saiu pela porta lateral. Matheus ficou para trás, olhando o envelope que Valdir guardava na gaveta de cima. A diferença de caixa já tinha nome e hora marcada antes de qualquer um contar.
