Júlia parou na cozinha de Augusto com a fotografia rasgada na mão. O pai estava sentado à mesa, olhando para o nada. Ela colocou o pedaço de papel entre os dois pratos de comida que ainda fumegavam. O que ela ainda não sabia era que aquela imagem ia mudar tudo o que pensava sobre ele.
A foto sobre a mesa
Júlia empurrou a foto para o lado do pai. O rosto do homem na imagem aparecia cortado ao meio, mas ainda dava pra reconhecer o policial que tinha sido acusado anos atrás.
— Pai, isso é verdade? Você encobriu o erro dele pra não sujar seu nome?
Augusto ficou quieto por um tempo. Depois suspirou e mexeu no garfo sem comer.
— Eu era novo na delegacia. Tinha acabado de casar, sua mãe estava grávida de você. Se eu contasse a verdade, ia perder o emprego.
O que o pai escondeu
Júlia apertou a borda da mesa. A voz saiu baixa, mas firme.
— Você sempre falou que não tolerava mentira. Que a lei era a lei. E deixou outra família pagar pelo que o outro fez?
Augusto baixou a cabeça. As mãos dele tremiam um pouco.
— Eu pensei que fosse só uma vez. Depois não consegui mais voltar atrás. Tinha medo de perder tudo.
Ela já desconfiava que o pai não era tão perfeito quanto parecia. Mas ouvir ele admitir aquilo doeu mais do que imaginava.
Rafael entra na conversa
A porta da frente rangeu. Rafael apareceu no vão, ainda com a chave na mão. Parou quando viu os dois parados, a foto no meio da mesa.
— Cheguei agora. O que está acontecendo?
Júlia virou o rosto para ele, os olhos vermelhos.
— Eu descobri que meu marido mentia para mim e agora descubro que meu pai também mentiu a vida inteira.
— Eu só queria proteger vocês — disse Augusto, quase num sussurro.
Rafael ficou em silêncio, olhando de um para o outro. Não disse nada, só puxou uma cadeira e sentou.
A contração que mudou tudo
Júlia abriu a boca para falar de novo, mas parou. Uma dor forte subiu pela barriga. Ela segurou o ar e encostou a mão no balcão.
— Ai… isso não é normal.
Augusto se levantou rápido. Rafael já estava ao lado dela, segurando o braço.
Eles a ajudaram a descer as escadas até o carro. Na rua, o cheiro de comida ainda saía da janela aberta. Augusto pegou o telefone e ligou para o hospital enquanto dirigia. Rafael olhou para trás uma vez, vendo a casa ficar menor no retrovisor. Júlia respirava fundo, tentando não chorar. A dor voltou, mais forte, e ninguém sabia ainda o que ia acontecer quando chegassem lá.
